20 de novembro: mais do que todos, um dia de luta

Na mesma semana que o STJD devolveu os pontos do Brusque após o caso de racismo contra Celsinho, a pergunta que permanece é: até quando?

20 de novembro de 2021. Dia da Consciência Negra. Em um mundo ideal, o feriado serviria para transformar o mês de novembro em um lugar de escuta à todas as dores e problemas que os negros sofreram e sofrem na sociedade. Em um mundo ideal, além de suas vozes ouvidas, a sociedade teria ações para que as gerações futuras não precisassem viver os mesmos problemas. Na realidade, em um mundo ideal a gente nem precisaria de dar um mês para os negros chamarem de seu. Seria natural. Mas não é assim que funciona.

Claro que estamos em um processo de desconstrução. Nada muda do dia pra noite. O branco não vai virar e simplesmente ceder seu lugar de fala e abdicar de seus direitos para o bem de uma sociedade igualitária. Até porque não é isso que nós queremos. A única coisa que pedimos é oportunidade. De sermos ouvidos, de questionar, de ocupar lugares que talvez, para nossos antepassados, seriam inimagináveis. Queremos a oportunidade de viver a vida em sociedade livre e igualitária, sem se preocupar quem será a próxima vítima do racismo institucionalizado que assola e assombra por tanto tempo.

O futebol, por ser figurado dentro da sociedade, não foge muito deste cenário. Casos e mais casos de racismo no esporte ao redor do mundo e, quando feitas, as punições não são severas o suficiente. Como sabemos? Porque elas continuam a acontecer. A decisão do STJD de devolver os três pontos que havia tirado do Brusque por conta do caso racismo de um dos dirigentes do clube contra o jogador Celsinho, do Londrina, é constrangedora, mas emblemática – principalmente por acontecer justamente na semana do feriado.

O “juízo final”

18 de novembro de 2021. Um dia para entrar na história do futebol brasileiro. O país que é conhecido por suas glórias, que tem quatro times disputando as finais das maiores competições continentais, viveu uma de suas maiores vexames na história. A vergonha ultrapassou as barreiras das quatro linhas e escancarou a situação caótica que os bastidores do futebol brasileiro vive. Talvez o caso específico se estenda apenas pro mundo esportivo, mas é um retrato da sociedade.

Em disputa válida pela 21ª rodada da Série B do Campeonato Brasileiro, Brusque e Londrina se enfrentaram em 28 de agosto. No final do primeiro tempo, o jogador Celsinho, meia-atacante do Londrina, disse ao juiz que tinha ouvido uma frase vinda da arquibancada do Estádio Augusto Bauer. “Vai cortar esse cabelo, seu cachopa de abelha”. Como ainda estávamos sem torcida, foi mais fácil identificar o autor da frase: Júlio Antônio Petermann, presidente do Conselho Deliberativo do Brusque.

Após o time da casa acusar o jogador de falsa imputação de crime, o chamado de oportunista em uma nota divulgada no dia seguinte, o Londrina divulgou o vídeo que foi possível ouvir um grito de macaco. Além do pedido de desculpas, o Brusque afastou o dirigente e instalou câmeras que captam os áudios das arquibancadas.

Dia 27 de setembro ocorreu o primeiro julgamento do caso. Nele, o clube e o conselheiro foram enquadrados no artigo 243-G do Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD) e responderam por “ato discriminatório”. A punição para o Brusque foi perder três pontos na tabela de classificação e multa de R$ 60 mil. Júlio Petermann foi suspenso por 360 dias e foi multado em R$30 mil.

Porém, como esperado, o Brusque recorreu. Um mês depois da decisão,   atletas e dirigentes do clube divulgaram um comunicado dizendo que a decisão não penalizava o responsável pelo ato. O julgamento que aconteceu na última quinta-feira (18) era a última instância. Por 5 votos a 2, o júri do STJD devolveu os três pontos retirados do Brusque. As multas e punições para o dirigente da equipe quadricolor foram mantidas.

O juízo final de um caso de racismo foi, mais uma vez, feito por brancos. Por pessoas que diminuem a dor do outro e usam isso de parâmetro para dar uma sentença. Por pessoas que nunca irão saber ou entender o que é sofrer racismo na pele. Por pessoas que sabem, muito bem, que aquele não é o primeiro e nem será o único caso de racismo a ser julgado.

Do outro lado, as coisas são diferentes… ou nem tanto

Do outro lado da moeda, os clubes procuram jeitos de apoiar as causas raciais – principalmente quando casos como o de Celsinho acontecem. Com a rapidez que as coisas acontecem, a sociedade é “obrigada” a ter memória curta. Não dá tempo de discutir o por quê aquilo aconteceu antes de acontecer outro novo caso de racismo. Por isso, é muito comum de clubes brasileiros aderirem a causa, não apenas por conta de valores sociais, mas porque isso dá dinheiro. Camisas especiais e campanhas publicitárias dão lucro ao clube, que ainda por cima ganha fama de apoiador da diversidade.

Não estou aqui para condenar ninguém e nenhum clube por fazer isso. É um dos vários mecanismos que a sociedade criou para viver no capitalismo. Porém, o buraco é muito mais embaixo. Não serão ações publicitárias e camisas de futebol que serão a cura do racismo. Eles apenas mostram o que a sociedade realmente pensa da igualdade racial: como algo lucrativo, mas bem longe da realidade. E o pior de tudo: as atitudes para mudar a sociedade – como punições mais severas por exemplo – são praticamente uma raridade.

Claro que as mudanças não acontecerão de uma hora pra outra, mas elas devem acontecer em algum momento. Quando será o ponto de virada? Quando mais milhares morrerem por racismo? Terá o ponto de virada? Ou o comodismo vencerá mais uma vez?

A sociedade precisa acordar o mais rápido possível. Isso é um fato já falado diversas e diversas vezes durantes anos e anos e parece que nada muda. Apesar dos avanços, sempre ocorrem os “casos isolados” que já viraram recorrentes. Por um 20 de novembro com mais ações do que ideias. Por um 20 de novembro com mais empatia. Por um 20 de novembro que mostre realmente a importância de ouvir a população negra e suas dores, experiências, choros, risos. Por um mundo onde o 20 de novembro se transforme em um ano inteiro.

Foto em destaque: Divulgação /Ricardo Chicarelli/ Londrina EC

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