Homossexualidade no futebol: por que precisamos falar sobre isso?

Jogador australiano se assume gay, recebe apoio e reacende debate sobre o assunto

Na última terça-feira (26), o jogador australiano Josh Cavallo, do Adelaide United, assumiu ser gay através de um vídeo e um comunicado divulgado em suas redes sociais. O meia, que tem 21 anos, é um dos poucos a falar abertamente sobre a sua sexualidade no meio do futebol, ainda mais no início de sua jovem carreira.

O atleta afirmou que um dos objetivos de assumir sua homossexualidade é mostrar que todos podem ser bem-vindos dentro do esporte, independente de qualquer coisa. O vídeo, que foi amplamente compartilhado e comentado nas redes sociais nos últimos dias, recebeu comentários majoritariamente positivos, celebrando a coragem do jovem australiano e o bom exemplo demonstrado para futuros atletas. Ainda, os jogadores Gerard Piqué, do Barcelona, Antoine Griezmann, do Atlético de Madrid, e Zlatan Ibrahimovic, do Milan, demonstraram seu apoio e admiração a Josh nas redes sociais, reforçando o posicionamento do meia sobre a aceitação de todos dentro do esporte. Mas porque é importante falarmos sobre isso?

É fato que o mundo do futebol sempre foi rodeado por preconceito. Em tempos mais antigos era o racismo, que infelizmente acontece até hoje em algumas ocasiões. Há, também, episódios de machismo, envolvendo tanto as opiniões contrárias ao futebol feminino por parte da imprensa e pelo público, a diferença enorme de patrocínios e salários entre mulheres e homens e, claro, com as torcedoras, que são julgadas e muitas vezes ridicularizadas ao afirmarem seu amor pelo esporte, tendo muitas vezes que realizar algum tipo de “comprovação”; que mulher nunca ouviu “se você gosta mesmo de futebol me explica o que é impedimento” ou “me diz a escalação do seu time de 2010”. Tais situações trazem um grande desgaste para aqueles que são atingidos, podendo afetar, também, o que sentem em relação ao futebol. E com relação à sexualidade, o problema não seria diferente.

O estigma que existe em volta da homossexualidade é antigo, onde a sociedade afirmava que amar pessoas do mesmo sexo era errado e pecaminoso, principalmente por conta da influência que a Igreja possuía sobre seus fiéis. O fim do século XX viu a situação mudar um pouco; o século XXI trouxe a aceitação por grande parte das pessoas e a proteção por órgãos governamentais, mas o cenário ainda se mostra complicado. No futebol, é pior ainda. Em um meio que sempre foi repleto de preconceito e que qualquer atitude/comportamento fora do “normal” é alvo de escrutínio pela mídia e de piadas pelo público, é compreensível que os atletas homossexuais queiram se manter em silêncio, a fim de protegerem suas vidas privadas e suas carreiras. A vida de um jogador de futebol e a pressão que a acompanha já são duras o suficiente, e a potencial adição de preconceitos e ameaças a essa mistura seria incrivelmente prejudicial para o mesmo. 

Nos estádios, xingamentos atrelados à orientação sexual eram sempre utilizados contra jogadores adversários, juízes, etc. Nas torcidas, os cânticos “time de vi…” eram comuns. Ao longo dos anos, essa situação foi se modificando aos poucos, onde a maioria das pessoas passou a entender que se utilizar desses mecanismos também é uma forma de preconceito. Com o auxílio dos clubes, que buscam reforçar seu apoio contra a homofobia, e de algumas penalizações para casos mais graves, o cenário geral tornou-se um pouco melhor. Para os atletas, porém, não muda muita coisa. Ainda há o estigma, a insegurança, o medo; o conservadorismo é o que impera, especialmente entre as federações mais poderosas que poderiam fazer algo de mais relevância a respeito. E essa relação problemática não fica limitada apenas ao futebol, infelizmente.

Nos últimos anos, houveram algumas demonstrações do quanto o cenário ainda é preocupante. Em 2018, em uma entrevista ao jornal “Le Figaro”, o atacante francês Olivier Giroud afirmou que é “impossível ser homossexual no futebol”. O jogador lembrou o caso do alemão Thomas Hitzlsperger, que, em 2014, após se assumir gay e voltar a jogar, sofreu preconceito da mídia e dos torcedores. Em junho deste ano, durante a Eurocopa, o lateral belga Thomas Meunier criticou publicamente a Uefa quando a instituição proibiu a arena de Munique de iluminar seu estádio com as cores da bandeira LGBTQIA+. Vale lembrar que junho é o mês onde é celebrado o orgulho LGBTQIA+, e mesmo querendo prestar uma homenagem, um símbolo de apoio, o ato foi censurado. E não são apenas os jogadores que sofrem. Em 2016, o árbitro espanhol Jesús Tomillero, que havia se assumido gay há pouco tempo, foi alvo de xingamentos durante uma partida de juvenis na Espanha. Após o episódio, desmotivado com a situação, decidiu encerrar sua carreira, mas mesmo assim recebeu o apoio do ex capitão e goleiro do Real Madrid, Iker Casillas, nas redes sociais. 

Josh Cavallo, então, mostra que tem coragem e resiliência para ir contra todo um estigma que está enraizado no mundo do futebol há anos. Mas, além disso, ele demonstra que é perfeitamente confortável com si mesmo, e abraça a ideia de igualdade em um esporte que é tão desigual, de diversas formas. Josh Cavallo mostra que é ousado, firme e original. Ele é exemplo. É evolução.

Foto de destaque: Reprodução/Adelaide United

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