Análise: Por que a final da Champions League feminina mostra os novos tempos?

Em uma temporada atípica de times como o Lyon, Barcelona e Chelsea puderam mostrar que o investimento na categoria dá certo e pode render frutos

O futebol feminino mundial vive novos tempos. O sucesso de audiência da Copa do Mundo da França em 2019 abriu os olhos de clubes e federações para a categoria. Segundo o relatório ‘France 2019: Global Broadcast and Audience Report’, realizado pela FIFA em 2019, mais de 1 bilhão assistiu à competição pela TV ou pela internet.

A história do futebol feminino europeu mostrava principalmente dois países mais dominantes: a Alemanha, com seu tradicionalismo, conseguiu virar referência dentro e fora da Europa. Além dos dois títulos de Copa do Mundo com a Seleção nacional, a taça da Champions League foi para terras germânicas nove vezes, com quatro times diferentes. Em um reinado mais recente, as francesas também conseguiram bastante destaque, principalmente com o Lyo, que virou exemplo na luta por igualdade de oportunidades e condições de trabalho. 

Porém, os tempos são outros. Após cinco títulos consecutivos, o Lyon foi eliminado nas quartas de final contra o rival PSG e os holofotes apontam para outros times e países: a sede da próxima Eurocopa Inglaterra, representada pelo Chelsea, e a Espanha de tanto desenvolvimento atual, representada pelo Barcelona. A final do próximo domingo (16) mostra que o investimento na categoria, além de necessário, dá resultado.

A volta por cima

O Chelsea é um dos times que mais acreditou no futebol feminino na temporada. Acreditou na categoria, nas suas jogadoras, no trabalho da sua comissão técnica e isso vem dado resultados ótimos desde a temporada 2014/15, quando alcançou o vice-campeonato da FAWSL pela primeira vez. Desde então, são quatro títulos nacionais e dois vice-campeonatos. Em todos deles, temos Emma Hayes como comandante. 

Hayes pegou o time em 2012 e nunca mais soltou. Mesmo em 2018, quando estava grávida, teve que reformular a equipe após a saída de peças importantes, como a capitã Katie Chapman, a artilheira Eni Aluko e a goleira Becky Spencer. E conseguiu. No ano seguinte, o Chelsea já estava novamente no topo. Na atual temporada, além das estrelas, como a artilheira Sam Kerr, que fez 21 gols na FAWSL, o clube ainda contratou Pernille Harder, atacante norueguesa que custou 350 mil euros aos cofres dos Blues, se tornando a maior contratação da história do futebol feminino. Agora, são mais troféus em disputa: além da Champions e da FA Cup, as Blues já ganharam o Campeonato Inglês e a Copa da Inglaterra.

Outra bela história da temporada é a de Franchesca Kirby. No clube desde 2015, a atacante inglesa descobriu uma pericardite, que é uma doença cardiovascular, em novembro de 2019. Até então, Kirby era uma das principais estrelas do time e teve que ficar de fora tratando de uma doença que poderia até aposentá-la. Depois de nove meses parada, Super Fran voltou aos gramados na final da Community Shield, contra o Manchester City, em agosto de 2020.

Desde então, ela tem 17 gols em 22 partidas. Pela FAWSL são 11 gols, seis assistências e 68% de precisão de passe. Na final da Copa da Inglaterra, foram dois gols e quatro assistências. Com certeza, a Super Fran é uma das jogadoras mais importantes do Chelsea na temporada, já que virou artilheira também na história do clube, com 82 gols.

O Chelsea apostou não só em Emma Hayes, Sam Kerr ou Fran Kirby. Apostou na continuação de um trabalho, apostou que o investimento daria frutos no futuro. Apostou em uma categoria que cresce cada vez mais dentro e fora da Inglaterra. E nessa aposta, todo mundo ganha. 

Recorde atrás de recorde

Com certeza, estamos vendo a história do futebol feminino mundial sendo escrita. No caso do Barcelona, o resultado é ainda mais palpável. Na Primera Iberdola, o Campeonato Espanhol feminino, o time comandado por Lluís Cortés ganhou todas as 26 partidas e já é campeão, com cinco rodadas de antecedência. A diferença é ainda mais gritante quando falamos de saldo de gols: além de marcar 128 vezes só no nacional, o time tomou apenas cinco gols. É indiscutível a dominância dentro da Espanha.

Porém, para ela acontecer, o clube acreditou. Não só o clube, mas o país acreditou. Além da dominância culé, a temporada do futebol feminino espanhol foi marcada pelos protestos pela profissionalização do campeonato nacional e por igualdade de direitos. A luta por direitos trabalhistas também deu resultado com a Federação Espanhola, declarando a Primer Iberdrola como uma liga profissional após 32 anos de história. Além de modificar seus estatutos, a mudança assegura às atletas os mesmos direitos que os jogadores do futebol masculino já têm, como boas condições de trabalho e acesso a todos os equipamentos necessários para exercer a profissão. 

A realidade do futebol feminino é bem parecida em vários lugares por conta de sua carga histórica. As lutas são bem parecidas e não importa muito se você é brasileira, espanhola, inglesa ou de qualquer outra nacionalidade. É a luta constante por visibilidade, por igualdade e, principalmente, por respeito. O mundo está mudando e exemplos como Barcelona e Chelsea, que não deixaram de acreditar e investir no futebol feminino, são a resposta disso.

Foto em destaque: Divulgação/Barcelona feminino

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