Raízes Negras: Daniel Alves, o maior campeão da história

De Juazeiro à Europa, a luta de Daniel Alves começou na roça e literalmente conquistou o mundo

Nascido em Juazeiro, Bahia, Daniel Alves teve uma infância muito difícil ao lado do pai Domingos Alves da Silva e da mãe Lúcia Ribeiro. Ao lado do pai, Daniel chegou a trabalhar na roça, plantando tomate, cebola, melão e alho, além de caçar aves para reforçar a alimentação dentro de casa.

Amante do futebol desde muito cedo, Dani começou a improvisar bolas com sacos plásticos e até mesmo meias velhas, para simplesmente ter contato com a modalidade. Quando ia trabalhar com seu pai, Domingos Alves, na roça que ficava na cidade de Salitre, a 30 km de Juazeiro, ele aproveitava para jogar com os amigos nos campos de terra que haviam no local.

Em 1997, Daniel chegou a atuar no filme de Sérgio Rezende, conhecido como Guerra dos Canudos. O papel era de ser figurante como atirador, e isso rendeu à família uma alimentação que beirava entre R$ 5 a R$ 10 reais por dia. 

Com 13 anos, mudou-se sozinho para estudar em uma academia de futebol com outros 100 garotos de sua idade. Com uma infraestrutura ruim, ele não se alimentava direito e tinha apenas uma troca de roupa. Com o esforço do seu pai, ele conseguiu uma segunda roupa, que foi roubada do varal do alojamento. Naquele momento, a história dele começou a mudar. Daniel percebeu também durante a academia que não era o jogador mais habilidoso e fez a seguinte promessa:

“Eu digo a mim mesmo: ‘Você não vai voltar para a fazenda até você deixar seu pai orgulhoso. Você pode ser o número 51 em habilidade, mas você será o número um ou dois em força de vontade. Você será um lutador. Você não vai voltar para a casa, não importa o que aconteça”, relata. 

E cumpriu. Em 2001, o lateral chegou ao time do Bahia, sua estreia profissional foi contra o Paraná na reta final do Campeonato Brasileiro daquele ano. O Tricolor venceu por 3 a 0, mas foi no ano seguinte que Daniel chamou a atenção dos observadores do Sevilla, após disputar o Brasileirão e conquistar a Copa do Nordeste, em 2002, além de ter uma participação na campanha do título do Brasil no Mundial sub-20.

Foto: Reprodução/Barcelona

Com as portas da Europa abertas, Daniel Alves, infelizmente assim como muitos jovens brasileiros, acabou não tendo muitas chances no time titular e ficou preso no esquema tático do clube, que tinha por padrão a orientação de que a defesa não deveria ultrapassar a linha do meio de campo. Desobediente, ele quebrou a regra e isso mudou a segunda chave da sua vida, sendo uma das características mais marcantes como jogador.

A estratégia funcionou tanto que o bom desempenho do jogador chamou a atenção do Barcelona e foi para lá que o lateral mudou-se em 2008, vencendo a Liga dos Campeões da Europa logo na primeira temporada que atuou pelo time, além de diversos títulos pelo clube.

Em 2016, Daniel Alves assinou um contrato com a Juventus, da Itália. Cerca de um ano depois, mudou-se para a França para atuar pelo Paris Saint-Germain, conquistando o título da Supercopa. Dois anos depois, Dani retornou ao Brasil para atuar pelo São Paulo, time em que atualmente é o capitão.

Ele é, hoje, o jogador com mais títulos oficiais na história do futebol (40), à frente de Giggs, Iniesta, Maxwell e Piqué (com 35 títulos cada). Em sua trajetória, a metade dos títulos foram conquistados pelo Barcelona, onde atuou com grandes nomes da modalidade. Na Seleção Brasileira, por sua vez, Dani consagrou-se campeão da Copa América duas vezes, assim como pela Copa das Confederações.

Além dos títulos

Ainda que sua vida fosse cheia de luta e conquistas, Daniel Alves teve momentos em que qualquer um perderia as forças, mas não a razão.

Em abril de 2014, em um jogo contra o Villarreal, ele foi vítima de racismo, após um torcedor do time local jogar uma banana em sua direção. Sua atitude foi de comer a fruta no meio do jogo, o que mais tarde gerou uma grande repercussão.

Em tom bem-humorado, o atleta chegou a comentar do incidente, e alguns colegas de Seleção, na época, se uniram nas redes sociais na campanha #SomosTodosMacacos, em repúdio ao episódio. A ação e atitude do jogador é muito lembrada, principalmente e infelizmente em outros episódios de racismo no futebol.

Recentemente, o jogador deu sua opinião sobre as manifestações antirracistas feitas após a morte do segurança George Floyd, em Minneapolis, nos Estados Unidos. O experiente atleta, de 37 anos, afirmou ser contra a generalização de que todos os brancos são racistas e pediu mais humanidade e atitude às pessoas para combater a questão. Em suas palavras, Daniel disse:

O ódio não pode ser combatido com ódio, tem que ser combatido com amor. Se você colocar teu ódio para fora você está se igualando ao infrator. A gente não pode ser extremista, temos que punir os preconceituosos, os racistas, não generalizar que todo branco é racista. O racismo a gente vive de perto nas favelas, no cotidiano. Também tenho muitos amigos gays. A gente vive o preconceito. A gente tem que tentar melhorar o que está do nosso lado, que todo mundo tente melhorar o que está ao alcance, senão a gente começa a virar extremista e tem que esperar chegar a situações graves como essa para tomar alguma providência. Fico super chateado que, nestes momentos, a gente ainda tenha que estar falando disso. As pessoas estão perdendo o senso do humanismo. A base de tudo é o respeito“.

Foto de destaque: João Queirolo/Veja

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