Foto: Pedro Ernesto Guerra Azevedo/Santos FC

Ketlen: ídolo das Sereias da Vila

Uma história de um jeito que você nunca viu: contada 100% pela Ketlen; Confira agora a entrevista exclusiva com a craque das Sereias da Vila

Nasci em Rio Fortuna (SC), no dia 07 de novembro de 1992, e sempre fui muito apaixonada por futebol, essa paixão já veio comigo. Minha mãe contava para mim e para o meu irmão mais novo todas as histórias da minha avó. Ela havia falecido antes de eu nascer, conheceu só meu irmão mais velho, eu nem estava nos planos da família.

Vovó era santista, daquelas bem malucas pelo time. Trabalhava como professora e era ex-jogadora de futebol, não tinha um da cidade que a conhecia e não gostava dela. Eu escutava as histórias e ficava encantada. Imagina se o pessoal não falava muito disso?

Em 2007, fui fazer o teste no Santos, o clube do coração dela. Com apenas 15 anos, entrei no Alvinegro praiano, tinha um sonho de jogar em um time grande. Esse era o meu pedido em todos os aniversários ao apagar a velinha, todos os anos.

Quando cheguei nas Sereias, não imaginava que o time ia ser tão grande como é hoje. Afinal, o Santos feminino não era tão conhecido assim. Mesmo assim, foi um sonho de criança realizado.

Meu começo foi um pouco conturbado, um pouquinho de dificuldade de adaptação, ficar longe da família. Mas, felizmente, tinha o apoio de muitas pessoas ao meu lado. Morava com o treinador do time, ele e sua família me acolheram como uma filha.

Em campo, marquei o meu primeiro gol com a camisa das Sereias aos 15 anos, 4 meses e 20 dias, em maio de 2007. A partida foi contra o São José, coincidentemente, o time que fiz o 98º e 99º gol da minha carreira no penúltimo jogo.

Em todos os meus momentos com essa camisa, só conseguia agradecer por todo apoio que recebi da minha família e pensar em como queria que minha avó pudesse estar na arquibancada vendo eu jogando pelo Santos.

Cem vezes Ketlen!

Eu ajoelhei no campo e comecei a chorar. Foi tudo no tempo certo. Passou tudo na minha cabeça naquele momento. Muitos agradecimentos para Deus, minha família e toda equipe.

Eu estava voltando de uma lesão no tornozelo, nem a fisioterapeuta acreditou que eu ia conseguir jogar essa partida contra o Minas Brasília e, muito menos, contra o São José. Foi uma ajoelhada de gratidão, por isso chorei tanto.

Todo mundo estava mandando eu ir para a área, para marcar o centésimo. Elas me procuravam para jogar a bola no meu pé. Foi uma força imensa, me ajudou muito.

Era para ter sido, a bola sobrou no meu pé de um jeito! Eu nem lembrava que havia começado a jogada, só lembrava que o gol era meu. Minha cabeça estava a mil, era para ser no meu pé, naquele dia e naquele momento, foi meu último gás!

Eu fico feliz em ter sido na hora certa e no momento certo! Eu ainda tentei fazer o terceiro na partida contra o São José, mas não era para ter sido. Para essa partida, trabalhei muito a saúde mental. Eu falava o que queria no momento, tanto que nos bastidores falei isso. Tudo estava certinho, estava muito confiante, foi em casa.

Homenagem fora do campo

Eu nunca tinha falado para ninguém, mas eu sonhava em ter uma camisa autografada pelo Pelé, o Santos não sabia. Quando recebi, foi muita surpresa.

Tinha até brincado com o Vitor, assessor do time, que eles nunca me pegariam em uma pegadinha, sou experiente nisso. Acabou vindo a surpresa com o Marinho entregando uma camisa e a placa.

No começo, achei que era fake, falei que eles estavam brincando comigo. O Vitor me mostrou até a foto para comprovar.

#KetlenNoMuro

É um outro sonho! Passo pelo muro e tem espaços vazios, cabe a minha carinha lá. O pessoal abraçou a campanha e eu fiquei muito feliz, não imaginava que queriam isso.

Eu ainda disse que posso apoiar, quero estar no muro! É um lugar que só ídolos estão, pessoas que marcaram o Santos. Se eu estiver lá, é porque realmente marquei o time.

O que mudou desde o começo?

Em 2007, como eu contei, não éramos o grande time de hoje. Nós não tínhamos tanto investimento, mas isso foi mudando. O Santos oferece tudo para a gente e ainda apoia o futebol feminino, não é somente o dinheiro.

Cheguei uma menininha, uma criança para jogar. Eu buscava exemplos dentro da equipe quando cheguei. Hoje sou o exemplo, a referência. As meninas ficam de olho, tentam seguir os meus passos.

As brincadeiras nunca mudam, fazem parte de mim! A Luaninha e a Laura moram comigo, adotei as duas como se fossem minhas filhas. Eu morava sozinha com a Luana no começo, tratava como mãe mesmo, precisava levar ela para os lugares. A gente zoa muito, é bom encaixar elas no time.

Relação com Guilherme Giudice

Estive com o Gui desde o começo, fui uma das primeiras que descobriu sobre o câncer. Eu fiquei sofrendo muito com isso, chorava muito com ele.

O Gui chegou para mim e falou que precisava da minha alegria naquele momento. Eu fui forte por ele, tentei ao máximo para ajudá-lo. Foi um momento muito difícil, tentei dar muita força.

Nós temos uma ótima relação, é uma pessoa que tenho um carinho muito grande, temos uma amizade muito boa. Eu entrei por ele, em todos os jogos, e dediquei o gol a ele também.

Ainda estou devendo açaí para ele, porque a alimentação tinha mudado e ele não podia comer. Eu prometi que quando tudo isso passasse, ia levar ele para jantar e comer o açaí.

O futuro no futebol

O meu maior sonho era chegar no centésimo gol, consegui! Quero conquistar mais títulos, gostaria de ter mais uma Libertadores, é um título importante para o time das Sereias da Vila.

Tenho vontade de trabalhar com crianças, com a base. O Santos tem um investimento bom nas ‘Sereinhas’. Eu já tenho formação e amo crianças, pretendo continuar dentro do clube, mas não com o profissional.

Não sei até quando vou jogar, tenho o sonho de ser mãe, construir minha família. Ainda não decidi se vou parar e depois volto, se paro de uma vez. Não sei como será ano que vem, tudo no seu tempo, vou saber o momento certo.

O trio de ataque

É um prazer jogar de novo com a Thaisinha e a Cris, é uma oportunidade tão boa! Jogamos juntas por um tempo, em principal, eu e a Thaís. Nós temos uma amizade muito boa.

Eu e ela sempre falávamos sobre o sonho de voltar a jogar junto. Finalmente, esse ano deu certo e estamos novamente no Santos.

Nós estamos ajudando muito uma a outra, estou muito feliz com o time. Temos uma amizade muito boa e isso fortalece a equipe!

Títulos carregados

Eu falo que, dos títulos que tenho, o Paulista de 2018 é o mais emocionante. Eu fui premiada com o gol do título na final, ficou tudo marcado pela maneira como aconteceu. Tínhamos algumas questões.

Agora o mais marcante, com certeza, a Libertadores de 2009. Pesou muito não só para mim, mas na história das Sereias da Vila. Esse título foi muito grande e abriu espaço para o feminino dentro do Santos.

A mídia estava em cima, lotamos a Vila pela primeira vez, foi o auge da minha vida e carreira.

Foto de destaque: Pedro Ernesto Guerra Azevedo/Santos FC

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