Há 70 anos, o racismo que persiste na figura de goleiro

Após a Copa do Mundo de 1950, só existiram dois goleiros negros titulares da Seleção Brasileira em Mundiais: Manga, em 1966 e Dida em 2006

O dia 16 de julho de 1950, há exatos 70 anos, acontecia no Maracanã a final da Copa do Mundo entre Brasil e Uruguai. Jogo este que ficou marcado na história do futebol brasileiro, por conta da derrota inesperada da Seleção Brasileira, e do estereótipo criado após essa partida, o de que negro não podia ser goleiro.

Conhecida como Maracanazo, a final  da Copa de 50, teve um vilão: o goleiro Barbosa, que entrou para a história do futebol, por ter supostamente falhado ao levar o gol que sagrou a Seleção Uruguaia campeã. Embora tenha sido considerado um dos maiores goleiros de sua época, Moacyr Barbosa, que era negro, carregou o fardo da derrota até o fim da sua vida em 2000.  A partir desse fato, em 1950, criou-se uma lenda racista de que goleiro não podia ser negro.

Historicamente, o negro demorou mais de duas décadas, após a chegada do futebol no Brasil em 1895, para ser inserido no meio. O racismo, porém persistiu e persiste até os dias de hoje, dentro das quatro linhas. A então falha de Barbosa e gol de Ghiggia, meia uruguaio, deixou marcas mais profundas na figura de goleiro.

“A pena máxima por um crime no Brasil é 30 anos. Eu pago por aquele gol há 50”

Frase repetida diversas vezes pelo goleiro Barbosa, que mesmo vivendo por mais 50 anos após a Copa, nunca conseguiu a sua absolvição.

Por muitos anos existiu a ideia racista de que o gol, por ser um setor que representa a confiança do time, seria mais adequado ao branco.

“ Negro no gol, não. Lembra do Barbosa?”, comentário que aconteceu durante anos entre comentaristas esportivos.

Exemplo do racismo estrutural e ainda existente que vivemos, aconteceu no programa da Fox Sport, no dia 16 de fevereiro de 2018, onde o ex-jogador Edilson, que é negro, contou mais um caso sobre seus dias em campo. Nessa ocasião, ele se lembrou de um jogo entre Palmeiras e Guarani. E juntamente com Zinho, também ex-jogador, recordou de sua fala durante o jogo:

“ Tá vendo o que eu falei? Tá vendo o que eu falei? É goleiro negão! Goleiro negão sempre toma um gol!”. 

Dida quebrou o tabu

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Foto: AFP Photo / DDP / Johannes Simon

Após 56 anos, a Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2006, voltou a ter um goleiro negro. Nélson de Jesus Silva, mais conhecido como Dida, defendeu o gol Brasileiro na Alemanha.

Antes de sua estreia no mundial, Dida concedeu uma entrevista e homenageou o arqueiro da Copa de 50. A lembrança de Barbosa surgiu, pelo fato de ele ter sido o último goleiro negro a ser titular da Seleção Brasileira numa Copa.

– Estou muito feliz, posso quebrar um tabu de mais de 50 anos, o Barbosa contribuiu muito para a Seleção e para o futebol – disse Dida em 2006.

Outros goleiros negros chegaram a ter passagens curtas pela Seleção depois de Barbosa. Veludo, do Fluminense, foi reserva em 1954. Manga, considerado uns dos maiores arqueiros do Botafogo, chegou a disputar um jogo como titular na Copa de 1966. Além deles, Lula, Jairo, Tobias e Acácio também vestiram a amarelinha em curtos períodos.

Dida chegou a ser capitão no jogo do Brasil contra o Japão na Copa de 2006. O goleiro, que teve passagem pelo Milan, esteve ainda no banco nas Copas de 1998 e 2002 (campeão), levou a medalha de bronze na Olimpíada de 1996 e foi Campeão Mundial sub-20 em 1993, como titular.

Mais recentemente, Jefferson, ex-goleiro do Botafogo, também atuou em alguns jogos da Seleção.

Foto de destaque: Fifa/Divulgação

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