Conheça a história de duas atletas que buscaram nos Estados Unidos a oportunidade de estudo interligada ao sonho de ser jogadora de futebol

Ana continua jogando futebol pela Universidade de Nebraska e ainda não se formou. Paty já é formada, se aposentou como goleira e atua como preparadora de goleiras das Sereias da Vila

Ana Caroline e Paty Nardy investiram no seu futuro fora do Brasil em épocas diferentes. Paty em 2007 e Ana em 2019. Ambas buscaram oportunidade de estudo interligada ao sonho de ser jogadora de futebol.

Apesar das suas experiências terem 12 anos de diferença, os elogios para a estrutura das universidades e o profissionalismo quanto à organização dos campeonatos continuam os mesmos. Conheça agora a história das duas e da realidade de quem optou por uma bolsa de estudos para jogar nos Estados Unidos.

Quando eu falo que no Brasil existe preconceito com o futebol feminino, elas dão risada e não acreditam”.

Ana Caroline começou a se entristecer com a incerteza do futebol feminino no Brasil e temia ter que deixar os seus estudos de lado por causa disso. Até que, com 15 anos, ela descobriu a opção de estudar nos Estados Unidos e jogar futebol pela universidade.

“Estudar e jogar sempre foi um sonho para mim, e eu me apaixonei por essa oportunidade. Decidi que iria para os Estados Unidos quando atingisse a idade suficiente, porque lá eu não teria que escolher entre o meu estudo e o futebol”, disse a atleta ao Rainhas do Drible.

Apenas quatro anos depois, esse sonho foi concretizado na vida da Ana. Nesse meio tempo, ela se dedicou firmemente aos treinos, jogos na várzea e no aprimoramento do seu inglês. E com 19 anos recebeu a proposta de um ‘coach’ que havia gostado do seu futebol após uma empresa ter encaminhado a ele vídeos dela jogando.

“A proposta era de uma bolsa de 100% para jogar e estudar na universidade, porém, a alimentação e acomodação ficariam por minha conta”, explicou Ana, que na época precisou ir para as ruas e fazer campanha na internet a fim de juntar dinheiro para conseguir se manter por um tempo nos Estados Unidos.

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Ana ia para as ruas com este cartaz pedindo recursos para custear sua viagem. Foto: Arquivo Pessoal

A organização da Western Nebraska Community College surpreendeu Ana antes mesmo dela embarcar. “Eu já sabia de tudo. Quando eu jogaria, contra quem, os horários e os locais. Essa organização que eles têm de ter um cronograma, calendário, de não fazer as coisas sem planejamento foi algo que me surpreendeu bastante”, contou ela.

Ana teve que se adaptar com uma nova rotina que consiste em: aula, faculdade, treino e estudo. Em entrevista ao Rainhas do Drible, ela disse que a sua maior dificuldade no início era ter que se organizar no planejamento dos seus dias.

“A rotina de um estudante atleta vai muito além de ‘só jogar’. Acho que as pessoas às vezes acham que é apenas isso, mas não é. Você vai chegar e terá obrigações com os estudos, trabalhos da faculdade… E se você precisar de dinheiro, terá que trabalhar”, apontou a atleta.

Ana considera os jogos normais e a única mudança que percebeu foi no estilo de jogo. “Lá é bem mais rápido, mas ainda assim o nível técnico do futebol no Brasil é melhor. Porém, sem dúvida, o país perde para a organização e estrutura dos Estados Unidos”.

O campo, local de treino e academia estão sempre à disposição das atletas. A Universidade de Nebraska tem o seu próprio ônibus, roupas de jogo e de viagem. E todas essas coisas ficam para as jogadoras.

“Às vezes no Brasil você vai para um time e não tem isso, tem que devolver os uniformes depois de viagem. Viajou na sexta, domingo quando chega já tem que devolver. São coisas que você vê bem mais profissionalismo mesmo sendo jogos de universidade”, comparou Ana.

O futebol é muito popular entre as mulheres nos Estados Unidos. Perguntamos para a atleta sobre o preconceito e a discriminação com a categoria, muito visível no Brasil, e ela nos contou que quando entra nesse assunto com as americanas, elas dão risada e não acreditam.

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Ana autografando a bola de uma garotinha que também quer ser jogadora, em Nebraska. Foto: Arquivo Pessoal

O preconceito lá não existe em relação a jogar futebol e ser mulher. Elas acham engraçado quando eu digo que as mulheres sofrem preconceito jogando futebol no Brasil. Dão risada, porque isso não é normal na cultura delas. Lá o normal é que desde os dez anos elas estejam jogando futebol”.

Com a pandemia da Covid-19, Ana voltou para o Brasil e aguarda o retorno das atividades em Nebraska. Do Rio de Janeiro e na companhia dos seus familiares, ela segue com o seu projeto ‘Atletas da Vida’, que começou em 2018 com a finalidade de realizar mentorias feitas por profissionais para ajudar atletas de futebol feminino a melhorarem o seu desenvolvimento dentro e fora do futebol.

Por meio das suas redes sociais, a carioca mostra o seu dia-a-dia fora do Brasil e encoraja meninas do mundo todo a irem em busca dos seus sonhos dentro do esporte. Com o retorno do público e a parada dos jogos, ela resolveu embarcar em uma nova jornada.

“Com o tempo, eu percebi que precisava produzir conteúdos mais concretos, por isso criei o curso ‘Seja uma Atleta da Vida’, que nesse primeiro momento está sendo feito de maneira gratuita”, contou Ana sobre o projeto.

Ela e os mentores irão selecionar 25 meninas para fazerem parte da primeira equipe. As atletas irão receber conteúdos e desafios para se desenvolverem como atletas e pessoas.

Ana tem 22 anos e está na Western Nebraska Community há nove meses. Terá dois anos na Western e mais dois em outra faculdade. Ela finalizou a entrevista ao Rainhas do Drible dizendo que está gostando muito da experiência que tem vivido e das oportunidades que estão se abrindo em sua vida.

Depois de ter jogado profissionalmente no Brasil, posso dizer que o campeonato universitário dos Estados Unidos é tão organizado quanto ou até mais que os campeonatos profissionais daqui”.

Patrícia Nardy, mais conhecida como Paty Nardy, foi para os Estados Unidos em 2007, com 18 anos, e ficou até 2013. A goleira retornou ao Brasil e começou a atuar pelo Americana, até que em 2016 foi contratada pelo Santos FC, clube no qual se aposentou e hoje atua como preparadora de goleiras.

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Paty em campo pelo Santos. Foto: Pedro Azevedo/Santos FC

Seu sonho de ir para os Estados Unidos começou  quando atuava como goleira do Guarani FC, em Campinas. Na época, o clube tinha como coordenador o Fernando Pereira, que sempre incentivou todas as meninas que passavam pelo time a estudar e tentar uma bolsa de estudo em alguma universidade americana.

“Quando eu cheguei no Guarani, eu tinha 12 anos e vi muitas meninas mais velhas partindo para estudar e jogar nos Estados Unidos. Isso acabou se tornando meu sonho”, disse a ex-goleira.

Paty jogou por anos no Guarani e conta que pôde participar de vários amistosos contra universidades que vinham dos EUA para o Brasil realizar a pré-temporada. “Isso fez com que minha vontade de ir só aumentasse”, acrescentou a ex-atleta, que aos 17 anos recebeu sua primeira proposta para ir jogar por uma faculdade fora do Brasil.

“A treinadora da época tinha sido uma das primeiras atletas do Guarani a ir para os Estados Unidos estudar e jogar. Foi através dela que veio a proposta para eu ir jogar na faculdade Union College”, contou Paty.

Porém, para ir a essa universidade, ela precisava passar em duas provas: o SAT, que é uma espécie de vestibular americano, e o TOEFL, que serve para avaliar o nível de inglês e é preciso atingir uma nota que varia de universidade para universidade.

“Essa prova é bem difícil, na época eu não falava inglês e cheguei a fazer um curso de um mês bem intensivo e específico para a prova. Fui para os Estados Unidos, fiquei morando por lá três meses na casa de uma família e mesmo assim não consegui passar na prova”, disse Paty.

O teste é dividido em quatro partes: leitura, escrita, audição e fala. Paty não passou e teve sua ida para a Union College adiada. Porém, na mesma época que ela iria para os Estados Unidos, o seu irmão também estava indo. Mas por outro jeito.

“Ele ia através de uma empresa que trabalha com intercambio. O homem que era responsável pela empresa acabou me ajudando e me indicou para uma outra universidade, essa só exigia a prova do SAT, e minha nota foi o suficiente para conseguir entrar nessa outra universidade, a North Eastern State University”, explicou ela.

Paty foi primeiro para a North Eastern State University, em Oklahoma, e após duas temporadas foi para a Union College, no Kentucky. Com o fuso horário de duas horas e vivendo a realização de um sonho, Paty avalia sua adaptação como rápida e tranquila.

“No primeiro mês foi mais tranquilo, pois era a pré-temporada, então a gente treinava dois períodos por dia e as aulas ainda não tinham começado”.

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Paty atuando pela Universidade. Foto: Arquivo Pessoal

Quando os estudos na universidade começaram, a goleira contou com a ajuda de outra brasileira para a sua adaptação. “No início nós ficávamos no mesmo quarto, e uma ajudava a outra. Além disso, a treinadora e a assistente técnica, também eram brasileiras e nos ajudavam bastante. Fora os outros brasileiros que tinham lá de outros esportes”, disse a ex-atleta sobre sua adaptação. “Além das aulas e treinos, eu também tinha que arrumar hora para trabalhar, então meus dias eram bem cheios”.

Com um estilo de jogo caracterizado pela velocidade e força, Paty falou também ao Rainhas do Drible sobre a quantidade de treino físico que era feito quando jogava em solo americano.

“Eu brinco que logo que cheguei não sabia se tinha ido pra jogar futebol ou atletismo, de tanto que eu corria, ainda mais por ser goleira, né?”. Além da diferença no treino, tem também a de investimento, que Paty analisa como ‘absurda’, desde a organização dos campeonatos até a estrutura da universidade.

Hoje, depois de ter jogado profissionalmente aqui no Brasil, posso dizer que o campeonato universitário é tão organizado quanto ou até mais que os campeonatos profissionais e, principalmente, os de base aqui do Brasil”, destacou.

“A estrutura das universidades é absurda, com campo de treinamento, campo para jogo, vestiário, academia, piscina, sala de fisioterapia, fora os materiais de treino e jogo”, acrescentou a ex-goleira.

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Foto: Arquivo Pessoal

Paty contou que os campeonatos iniciam em agosto e a primeira parte é dividida por conferências. Primeiro tem um campeonato de pontos corridos e, no final, é definido o campeão da conferência. Depois, os oitos primeiros times fazem as quartas de final e é então definido os quatro primeiros.

“O torneio da conferência acontece no campus da faculdade com os que ficaram em primeiro nos pontos corridos. O campeão do torneio vai para a fase regional. Os campeões da fase regional vão para os nacionais”, explicou ela.

Depois, vem a primeira fase dos nacionais, onde ocorrem partidas ‘na casa’ dos melhores ranqueados, e no final ficam 16 times, que se concentram em um lugar definido para o torneio dos nacionais até ter o campeão nacional.

“A maior diferença que percebi nos jogos foi que as meninas não eram tão boas tecnicamente, porém eram muito fortes fisicamente e muito obedientes taticamente”, disse Paty.

Nos Estados Unidos, o futebol é muito mais praticado por mulheres e, por isso, o preconceito com a prática esportiva não é comum de acontecer. Porém, Paty disse que apesar dos homens preferirem o futebol americano, basquete e basebol, a mulher segue sendo menos valorizada no âmbito esportivo como em qualquer outro lugar. “Prova disso é a seleção feminina, que é campeã mundial, campeã olímpica e mesmo assim recebe bem menos do que a seleção masculina que nunca ganhou nada”, analisou ela.

Hoje, Paty está aposentada e atua como preparadora de goleiras das Sereias da Vila. “A convivência com treinadores e até atletas de outras nacionalidades que tiveram outras experiências com certeza agregou bastante para o meu crescimento e me ajuda no dia-a-dia a passar um pouco dessa experiência para as meninas”, finalizou.

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Hoje, Paty Nardy é a preparadora de goleiras das Sereias da Vila. Foto: Pedro Azevedo/Santos FC

Foto de destaque: Arquivo Pessoal

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