A dívida histórica do futebol feminino

Antigamente, o futebol era visto como um esporte exclusivamente masculino por ser bruto demais para as mulheres 

As últimas conquistas do futebol feminino em 2019 deu um crescimento na modalidade, mesmo faltando muitas coisas para um desenvolvimento maior, vemos nas redes sociais muitas comparações entre as modalidades feminina e masculina do futebol. Mas, será que é justo comparar?

O futebol feminino teve o seu primeiro jogo oficial em 1921, entre Cantareirenses e Tremembenses, num evento de São João. Mas, logo este jogo começou a ser ridicularizado e apresentado em circos. Definitivamente, não era um esporte que agradava os conservadores e nem Getúlio Vargas. Por isso, no dia 14 de abril de 1941, Vargas tentou decretar o “fim” da modalidade.

“Art. 54. Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país.”

Entretanto, como o Decreto-Lei não citava as modalidades especificamente, procuraram maneiras de burlá-lo, especialmente em Minas Gerais e isso acabou gerando um novo problema. Durante o regime militar, o Conselho Nacional de Desportos resolveu reafirmar essa proibição através da Deliberação n° 7, em 1965, piorando ainda mais a situação feminina no esporte.

Não é permitida a prática de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, polo-aquático, pólo, rugby, halterofilismo e basebol. Assim, o desporto foi criminalizado por 40 anos. Apenas em 1979 esta proibição foi revogada, mas só em 1981 foi oficializada. Porém, somente dois anos após a oficialização, o futebol feminino passou a ser reconhecido como esporte. Foi uma longa história de obstáculos, preconceitos e proibições. Resumindo: estes 40 anos de proibição acabaram prejudicando o desenvolvimento e a profissionalização da categoria feminina. Foram quatro décadas de atraso em relação ao futebol masculino.

Não compare o futebol feminino com o masculino. É injusto comparar uma categoria que teve todo o tempo do mundo para crescer com uma que teve que enfrentar muitas barreiras para se tornar o que é. Além do mais, essas discussões acabam por te fazer achar que precisa escolher um lado, quando ambas as categorias podem e deveriam caminhar juntas.

Cria-se uma rivalidade que acaba por prejudicar o lado “mais fraco” e que não aumenta em nada a visibilidade conferida às mulheres. É muito fácil sair compartilhando notícias de grandes feitos delas sem procurar dar visibilidade para estas grandes mulheres.

As quatro décadas jamais serão esquecidas, a dívida jamais será paga, mas nós podemos escrever uma história diferente, para que daqui há 40 anos possamos ter um futebol feminino com muito mais apoio e visibilidade. E acredito que estamos juntos escrevendo essa nova realidade.

Foto de destaque: Reprodução/Acervo Museu do Futebol/Futebol Feminino

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