Exclusivo: conheça Paola López, jogadora mexicana do clube Pachuca

Paola, que também é formada em Ciência Política, atua como ponta ou volante no Pachuca, clube que está reiteradamente entre os quatro melhores times femininos da Liga MX

O futebol praticado por mulheres é algo ainda não tão comum a nível mundial. Como na maioria massiva dos países, o México é um claro exemplo de um país que sofre e sofreu com a cultura machista do futebol. Mas, felizmente, pouco a pouco esse cenário vem mudando, já que, cada vez mais, jogadoras estão surgindo e ganhando visibilidade no mundo futebolístico.

O presidente da Liga Mexicana, Enrique Bonilla, resolveu, junto com a Federação Mexicana, dar um passo importante rumo ao desenvolvimento do futebol praticado por mulheres no país e anunciou, no ano de 2017, o primeiro campeonato profissional de futebol feminino. Foi estabelecido que as equipes deveriam ter 21 jogadoras da categoria sub-23, quatro da sub-17 e duas da categoria livre. Todas as jogadoras deveriam ser de nacionalidade mexicana para fortalecer a seleção mexicana feminina. Atualmente, a Liga Mexicana Feminina é a divisão mais alta do esporte no país e tornou-se fruto de todas as conquistas do futebol feminino no México.

Antes da criação da Liga MX Feminina, os campeonatos eram totalmente amadores e muitas jogadoras precisavam migrar a outros países para poder jogar profissionalmente, como foi o caso de Paola López Yrigoyen, 26, nascida na cidade de Puebla, no México. Aos 16 anos, Paola foi tentar a vida como jogadora de futebol nos Estados Unidos e disputou a Copa do Mundo Feminina Sub-17. Por muitas vezes, ela pensou em desistir da carreira futebolística, o que, felizmente, não o fez, e hoje Paola López atua como ponte ou volante do clube Pachuca, além de ser formada na área de Ciência Política.

Abaixo, ela nos conta um pouco mais sobre a sua história.

Como foi o início da sua carreira? Em que momento você decidiu ser jogadora de futebol?

Em 2010 eu pude disputar a Copa do Mundo Feminina Sub-17, em Trindade e Tobago, uma nação caribenha. Na época, eu tinha 16 anos e não havia uma liga profissional no México. Ou eu ficava na seleção esperando que algum clube estrangeiro me chamasse ou eu iria para a NCAA (Associação Atlética Universitária Nacional), que oferece uma bolsa pra você estudar e continuar jogando e, a partir daí, tentar dar o salto profissional. Resolvi ir atrás de uma universidade para conseguir uma bolsa, e escolhi a Universidade do Sul da Flórida (USF). Fiquei jogando lá por um ano, até que perdi a vontade de morar nos Estados Unidos. A universidade não era muito exigente, eu sentia muita saudade de casa e não gostava do estilo de jogo. Então, voltei para o México ciente de que não iria jogar profissionalmente, porque eu não esperava que criassem uma liga profissional para mulheres, mas felizmente aconteceu e eu decidi arriscar. Fui jogar no Pumas e disputei a Liga MX com elas. Desde 2017 estou jogando a Liga MX Feminina. E em 2019 fui contratada pelo Pachuca, clube que estou atuando até hoje.

Como é a estrutura do futebol feminino no México? Você acha que devem melhorar em alguma coisa?

A estrutura do futebol feminino é a mesma do futebol masculino. Existem processos de seleções sub-15 até a mais alta categoria. Agora estão pensando em eliminar a segunda divisão (Liga Ascenso MX), eliminando 12 times, dos quais cinco possuem equipe feminina (Mineras, Doradas, San Luís, Alebrijes e Leonas Negras). Acredito que o ideal é que eventualmente os times femininos sejam negócios próprios, autossustentáveis, sem depender dos méritos esportivos dos times masculinos. E sabe porque eu digo isso? Quando estavam em conversações sobre eliminar a segunda divisão da Liga MX, se o time masculino da segunda divisão saísse do mapa, aconteceria o mesmo com o feminino (esse foi o caso do Veracruz e do Lobos BUAP). Em ambos os casos, os times femininos foram muito melhores que os times masculinos, mas tiveram que desaparecer juntamente com os times masculinos. Talvez agora seja inviável fazer essa separação, mas é algo que eu acredito que deve ser mudado no futuro.

Já sofreu algum tipo de machismo por ser mulher e escolher o futebol?

Sim, como todas as outras jogadoras. Quando mais nova, eu treinava nas forças básicas do Lobos BUAP. Eu era a goleira e a única menina. O ambiente era muito pesado porque havia cortes semanais, o que sempre acontece nos clubes menores. Eu sempre escutava gracinhas dos homens. E como em todas as ligas femininas profissionais, a diferença salarial é muito grande. Não que as mulheres queiram ganhar o mesmo salário que os homens – que é um dinheiro absurdo -, mas sim porque querem poder sobreviver desse esporte. Há alguns salários de jogadoras que está muito perto do salário mínimo no México. E para algumas mulheres, pode-se dizer que elas pagam para jogar, ou jogam por amor. Isso é reflexo do machismo, não é mesmo?

Como é vista a modalidade de futebol feminino na equipe que você atua?

Atualmente eu jogo no clube Pachuca, e sinceramente, é um dos clubes que mais apoiam o futebol feminino. Foi o primeiro campeão no torneio da Copa Mexicana, e desde o princípio foi possível ver o investimento do clube no time feminino. Eles construíram um pavilhão exclusivo para as jogadoras, com seus próprios vestiários, sala de reuniões, etc. Também treinamos em um campo híbrido pensado para o time feminino. É bastante tecnológico. Desde o princípio, o time feminino do Pachuca joga no mesmo estádio do time masculino, o que não acontece na maioria dos outros clubes. Salarialmente, não é dos times que pagam melhor, mas eles pagam bem e a muitas oferecem estudos, do ensino médio à carreira universitária. Inclusive, estão pagando pra mim a Escola Nacional de Direção Técnica (ENDIT). E também dão muito auxílio nas questões de saúde, fisioterapia, nutrição e transporte. Sinceramente, o clube Pachuca é um ótimo lugar para as mulheres.

Qual foi a sua maior conquista dentro do futebol?

Minha maior conquista foi disputar a Copa do Mundo Sub-17 em Trindade e Tobago, em 2010. Historicamente, foi a segunda Copa do Mundo feminina e a primeira vez que o México se classificou.

Como atleta, você possui patrocinadores?

Ainda não. Há os patrocinadores do clube Pachuca, mas eu, particularmente, não tenho. Espero que ao retomar o futebol, alguém queira me patrocinar.

Qual país você tem como referência no futebol feminino e quais jogadoras te inspiram?

Referências mundiais não me faltam. Não posso esquecer da seleção feminina tricampeã dos Estados Unidos, nem de jogadoras como Megan Rapinoe, do United States of America, Eugénie Le Sommer e Ada Hegerberg, referências do Olympique Lyonnais. Na América Latina, o Brasil sempre foi referência. Claramente a jogadora Marta tem um lugar único, mesmo que recentemente Debinha e Cristiane sejam as craques.

Você tem conhecimento do futebol brasileiro feminino? Se sim, atuaria em alguma equipe brasileira?

Sobre os clubes brasileiros femininos, eu não estou muito por dentro. Mas acredito que a estrutura do futebol brasileiro seja parecida com a estrutura do futebol mexicano. Não sei se algum clube brasileiro iria me querer atuando, mas se quisessem, seria uma ótima oportunidade.

Como está a situação do futebol feminino no México com essa pandemia do Covid-19? Os salários foram diminuídos?

Durante a pandemia, todos os clubes estão parados, assim como no mundo inteiro. Em relação aos salários, eles não foram reduzidos. O clube Pachuca, inclusive, publicou um comunicado oficial se comprometendo a não reduzir os nossos salários. Até aonde eu sei, os outros clubes mexicanos também não reduziram os salários dos times femininos.

O que você aconselha às meninas que têm o sonho de serem jogadoras de futebol, mas que são impedidas até mesmo pela própria família por conta do machismo?

Acredito que o preconceito familiar é o pior. Mas é muito importante escolher aquilo que mais te satisfaça. Se jogar futebol é a sua paixão, vai ser difícil ir contra as suas ideias e talvez afete um pouco os laços familiares no início. Mas se ao jogar futebol você é feliz, com certeza a sua família vai entender e aceitar. Pode demorar, mas o amor familiar acaba influenciando e, no final, tudo dá certo. Se é a sua paixão e se a sua alma fica tranquila ao jogar futebol, então faça o que te deixa apaixonada! A autenticidade e o amor genuíno que você coloca no que você faz, vai somar pessoas, e não tirá-las de você. Por isso, siga em frente. Vai ser difícil, mas há muitas coisas incríveis que valem a pena lutar. Jogar futebol é uma delas.

Para acompanhar a Paola López em suas redes sociais, é só clicar nos links:
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Paola López (Foto: Arquivo Pessoal)

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