Coronavírus: FIFPro alerta para ameaça quase existencial do futebol feminino se medidas de proteção não forem tomadas

A entidade ressalta que é preciso seguir o caminho de crescimento assegurado até antes da pandemia e dá sugestões, como aumentar o número de jogos internacionais

A Federação dos Jogadores de Futebol Profissional (FIFPro) demonstrou preocupação com os impactos do Coronavírus no futebol feminino. Em documento publicado na última quinta-feira (16), a entidade diz que a Covid-19 afetará com mais força aqueles que estão em condições precárias, com pouco investimento e poucas reservas a recorrer.

O estudo fala de uma “ameaça quase existencial” à categoria se ações para proteger a indústria não forem tomadas. “A menos que haja um comprometimento claro das partes interessadas no futebol de estabilizar competições e fornecer assistência financeira para manter ligas, clubes e jogadoras no negócio, a paralisação econômica vai resultar na falência de clubes estáveis e lucrativos em muitos mercados”.

A vulnerabilidade da indústria do futebol feminino

A FIFPro cita no estudo os pontos negativos: as ligas profissionais são menos estabelecidas, os salários são baixos, há um leque menor de oportunidades, os acordos de patrocínio são desiguais e há um menor investimento corporativo. Isso enfraquece o ecossistema do futebol feminino.

A falta de contratos escritos, a curta duração dos acordos de trabalhos, a falta de seguro saúde e cobertura médica e a ausência de proteção básica e direitos deixa muitas jogadoras em grande risco de perderem seu meio de sustento.

O impacto do Coronavírus nas competições femininas

Os primeiros impactos da Covid-19 no futebol feminino foram no começo de janeiro, quando as Eliminatórias para as Olimpíadas de Tóquio 2020 foram transferidas de Wuhan, na China, para Sydney, na Austrália, por conta da quarentena aplicada na cidade chinesa. Em março, as várias competições amistosas que aconteciam também foram afetadas, tendo jogos sem torcida e a Seleção Italiana abrindo mão de jogar a final da Algarve Cup, em Portugal.

De acordo com o estudo, as jogadoras também começaram a se preocupar com as mensagens recebidas por seus times. Há uma disparidade na maneira que a informação sobre o atual momento e a situação das equipes é dada. Enquanto algumas são informadas diariamente, outras quase nunca recebem.

A organização coloca como vital o esclarecimento para a saúde mental das atletas. Problemas como a incerteza, a quebra de expectativas e a saúde psicológica também são citadas no artigo.

O que pode ser feito

Apesar de ser visto por muitos clubes e federações como um custo, o futebol feminino é um ativo de grande valor. Como alternativas a essa nova fase, a FIFPro listou tópicos que podem ser aplicados no atual momento:

  1. Aumentar o investimento no futebol feminino ao invés de diminuí-lo;
  2. Tentar achar inovações que impulsionem o capital social por trás do jogo;
  3. Criar ambientes em que as atletas sejam tratadas com respeito, com seus direitos valorizados.

O interesse comercial da modalidade vem crescendo junto com as transmissões de jogos. Porém, os investimentos podem ser afetados. Dar ao futebol feminino a prioridade de escolher os locais dos jogos, horários das transmissões e situações que permitam que os fãs acompanhem, os patrocinadores lucrem e as emissoras ganhem audiência podem ser soluções.

Vendo o grande sucesso da última Copa do Mundo de Futebol Feminino, colocar os jogos internacionais como chave para reconstruir a indústria de futebol feminino para depois focar para o jogo profissional, pode funcionar.

Os avanços com as ligas domésticas são colocados em risco, podendo até retroceder com a crise. Como alternativa, o artigo sugere criar um ponto de vista em comum que una estratégias e implemente intervenções reguladoras para alcançar crescimento e empregos sustentáveis.

Foto: FIFA Woman’s World Cup

A aplicação de normas globais de trabalho no futebol feminino

No estudo, a instituição também teme pela falta de proteção básica e direitos de trabalho que deixem as atletas vulneráveis. Problemas como os salários baixos e o calendário apertado dão ainda mais holofote para os causados pela crise. “Devemos estabelecer, implementar e impor padrões globais da indústria para condições de trabalho no futebol feminino para proteger atletas do futuro crescimento da indústria”.

No relatório global de emprego da modalidade feito em 2017, a FIFPro revelou que apenas 18% das jogadoras eram profissionais segundo as regulações da FIFA, atendendo o critério de ter contrato escrito e ser paga por suas atividades. Os 82% restantes eram consideradas amadoras. A pandemia expõe riscos a essas jogadoras, que não são alvo de políticas de proteção de emprego. O relatório ainda fala que a duração média de um contrato de jogadora é de 12 meses, e que 47% nem contrato tem.

Ações da indústria para proteger a categoria

Baseado em todos os aspectos apresentados, a FIFPro sugere ações urgentes voltadas aos órgãos e comunidade do futebol, para garantir um planejamento adequado na volta do futebol feminino:

  1. Usar a crise como uma oportunidade de resolver as deficiências e estabelecer padrões globais de trabalho para as jogadoras;
  2. Aplicar medidas e condições financeiras especiais para jogadoras e clubes onde for necessário;
  3. Garantir que os investimentos pré-crise sejam mantidos;
  4. Exigir que nenhuma pessoa seja excluída de qualquer incentivo financeiro, programa de remuneração ou atividade que recebe assistência financeira;
  5. Desenvolver sistema de solidariedade e suporte da indústria futebolística para que a categoria não sofra grandes prejuízos;
  6.  Situar a indústria do futebol feminino para inclusão no financiamento do governo, particularmente para organizações vulneráveis.

Ao final, a FIFPro conclui que temos que proteger as jogadoras como pessoas e atletas, para evitar a recessão e o desemprego em massa. “A indústria de futebol feminino requer inovação e intervenção dos setores privado e público. Nosso objetivo final é não só limitar o prejuízo da nossa indústria, mas construir uma fundação mais sólida”.

2 comentários sobre “Coronavírus: FIFPro alerta para ameaça quase existencial do futebol feminino se medidas de proteção não forem tomadas

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