Um capítulo obscuro na história do futebol: A Lei do Amadorismo

Em 13 de maio de 1888, quando a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, colocou fim à escravidão no Brasil, mas longe de acabar com os preconceitos raciais e sociais. Afinal, desde o final do século 14, o mundo acreditava na supremacia ariana sobre todos que não fizessem parte dela.

Por isso, desde que passou a ser disputado aqui, o futebol vetou explicitamente a participação de negros e pobres em suas equipes. Os clubes que não impediam a associação de negros e operários em seus estatutos cobravam valores impensáveis a essas classes, o que acabava por impedir a indesejada presença em seus quadros sociais.

Havia quem não concordasse com isso. A Ponte Preta, foi a primeira a ter negros e pobres em seu elenco -desde que montou seu primeiro time, em 1900.

No Rio de Janeiro, o Bangu (formado em sua maioria por trabalhadores negros das fábricas do bairro) escalou Francisco Carregal em 1905 e quebrou a nociva regra. Porém, a presença de negros entre os jogadores de futebol, assim como a de pobres, incomodava a elite branca. Com isso, em dezembro de 1917, o Diário Oficial Carioca divulgou a Lei do Amadorismo, que afirmava:

“Não poderão ser registrados como atletas os que tirem os meios de subsistência de profissão braçal, aqueles que exerçam profissão humilhante (que lhes permite recebimento de gorjeta), os analfabetos e os que, mesmo que não se enquadrem nas condições citadas, estejam abaixo do nível moral exigido pelo Conselho Superior de Esportes”.

Simplificando: pretos e pobres, fora!

A pressão era tão grande, que nem mesmo com o passar do tempo e o surgimento de craques negros, como Friedenreich, amenizavam o problema. Em 1921, o ápice desse racismo aconteceu quando o então presidente da República, Epitácio Pessoa, se reuniu com diretores da CBD – Confederação Brasileira de Desportos – e pediu, explicitamente, para que apenas jogadores brancos e de cabelo liso fossem convocados para a Seleção Brasileira.

Por isso, muitos jogadores negros começaram a organizar ligas próprias. Assim, surgiram entidades como a Liga Suburbana de Futebol no Rio de Janeiro, a Liga Nacional de Football – pejorativamente chamada de ‘’Liga da Canela Preta’’- em Porto Alegre, e a Liga Brasileira de Desportos Terrestres – maldosamente apelidada de “Liga dos pretinhos” – em Salvador.

Em São Paulo, 12 equipes foram formadas apenas por pobres, pardos e negros, e uma delas tinha o nome de Black Team. Entre 1927 e 1939, chegou a acontecer anualmente na capital paulista o clássico “Preto x Branco”, em que jogadores das duas cores formavam equipes e disputavam a Taça Princesa Isabel. O jogo ocorria sempre no dia 13 de maio.

Como já descrito pelo jornalista Mário Filho, durante muito tempo existiu em nosso país uma campanha pelo ‘embranquecimento’ do futebol brasileiro.

Se ainda hoje há casos explícitos de racismo no futebol, imaginem então o que não acontecia há 100 anos atrás…

Foto: Observatório da discriminação racial no futebol.

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