Pierre Bordieu e a visibilidade do futebol feminino em 2019

“Como se produz a demanda dos “produtos esportivos”, como pessoas passam a ter o “gosto” pelo esporte e justamente por um determinado esporte mais do que por outro, enquanto prática ou enquanto espetáculo?” 

O sociólogo e filósofo Pierre Bordieu, já dizia, no ano de 1978, que o esporte é a luta por uma posição e status social, onde o indivíduo deseja encontrar prestígio, honra, e, principalmente, o reconhecimento dos agentes no espaço social dominado pela elite. 

Em 2019, é possível notar que essa ideia se mantém na sociedade, visto que muitas crianças e jovens almejam melhorar sua vida através do esporte. No entanto, analisando a história do futebol, especificamente, observa-se uma larga disparidade da atenção da mídia entre as modalidades feminina e masculina. 

Isso é resultado da falta investimento financeiro, público, visibilidade e diferença salariais que não atraem meninas, jovens e mulheres para praticar o esporte profissionalmente. A indagação de Bordieu feita no início desse texto, também se reflete nessas questões. 

Como gerar interesse para a prática e atividade esportiva, se não há uma oferta de qualidade em infraestrutura, treinamentos de comissões técnicas, materiais, departamento médico e, consequentemente, para o consumo, sem uma cobertura jornalística para o conhecimento do público? 

A Confederação Sul-Americana de Futebol, a Conmebol, determinou em seu regulamento em 2016, que todos o times brasileiros que quisessem participar das competições organizadas por ela, deveriam compor equipes formadas por mulheres e que estivessem participando de torneios.

A partir desse momento, houve uma corrida dos clubes para se adequar às regras e mais investimentos no futebol feminino. A Confederação Brasileira de Futebol, a CBF, assumiu os custos de transmissão dos jogos e passou a exibi-los na CBF TV e Twitter da competição. 

Já, a TV Bandeirantes foi a primeira emissora da TV aberta, a fazer acordo com a entidade para transmitir os jogos. O primeiro, entre as equipes do Santos e Internacional, já superou as expectativas tendo 2,5 pontos de audiências e 3,8 de pico.

Comemoração da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de Futebol Feminino, na França. Foto: Ricardo Stuckert / CBF.

Esse ano, houve um boom nas transmissões de jogos de futebol feminino, principalmente, durante a Copa do  Mundo de Futebol Feminino. Em sua oitava edição, pela primeira vez a competição foi exibida de forma exclusiva pela Rede Globo e ainda garantiu o recorde mundial de audiência, no confronto entre Brasil e França, com mais de 50 milhões de brasileiros assistindo simultaneamente. 

Algumas marcas também se interessaram pela modalidade durante o mundial. A marcas como a do Guaraná Antarctica e o Itaú Unibanco, com a hashtag #EuTorçoPorTodas, mobilizaram-se para chamar a atenção e aumentar a visibilidade das equipes femininas. 

Outra hashtag que também mobilizou as pessoas nas redes sociais foi a #EuConsumoFutebolFeminino, criada pela editora dos Canais Fox Sports, Carolina Caraciki, junto com a jornalista Chris Mussi, idealizadora da campanha #DeixaElaTrabalhar.

Carolina também foi coordenadora do programa Comenta Quem Sabe, apresentado pela Vanessa Riche, e tinha dificuldade de encontrar os gols do Campeonato Brasileiro Feminino. Foi diante desse empecilho que ela decidiu criar um grupo no aplicativo WhatsApp para divulgação de mídia feminina, que conta com mais de 200 jornalistas e profissionais de comunicação.

“Queremos mostrar que a modalidade tem público sim, precisa e merece mais apoio e investimentos. É uma soma”, afirmou a editora, destacando ainda, que o objetivo da campanha foi acabar com o papo das empresas e televisões de que o futebol feminino não tem audiência. 

A audiência ainda chamou atenção de muitas marcas, mas a primeira a patrocinar esse ano um torneio  nacional , o Brasileirão Feminino, foi a Uber. A empresa de mobilidade afirmou que apoia o empoderamento feminino e, por sso, decidiu fechar acordo com a CBF. 

Não há só uma simples esperança, mas expectativas reais de que as transmissões, visibilidade e apoio ao futebol feminino aumente nos próximos anos. Isso é positivo tanto para o público que terá uma oferta maior de conteúdo esportivo do gênero, quanto para os clubes que poderão começar a gerar mais receita com vendas de direitos dos jogos. 

Como ressaltou o sociólogo Bordieu, é o esporte do povo retornando ao povo sob a forma de espetáculo sim, mas com ofertas de inúmeros oportunidades para as mulheres que sonham a jogar futebol, marcas e público.

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