Precisamos falar sobre racismo

Atitudes racistas em partidas de futebol estão sendo frequentes em várias partes do mundo

Mais um episódio lamentável aconteceu na noite da última segunda-feira (14), em Sofia, capital da Bulgária.

Um jogo que deveria ser marcado apenas pela goleada de 6 a 0 da Inglaterra em cima dos donos da casa. Mas não foi apenas isso que aconteceu… Casos de racismo foram registrados por parte da torcida búlgara.

Nesta terça-feira (15), o primeiro ministro da Bulgária, Boyko Borissov pediu a demissão do presidente da federação Borislav Mihaylov, que não comentou a atitude criminosa dos torcedores e saiu do estádio antes mesmo do fim da partida. Mihaylov renunciou o cargo.

Outro caso de racismo que aconteceu ainda este ano foi na Itália. O lateral-esquerdo brasileiro Dalbert, da Fiorentina, foi mais uma vítima de racismo. Torcedores do Atalanta evocaram cantos ofensivos e preconceituosos contra o brasileiro de 26 anos. Além disso, os jogadores Romelu Lukaku e Franck Kessié foram outras vítimas da mesma situação no futebol italiano.

Ainda na Itália, neste mês, o Escritório Nacional Antidiscriminação Racial (Unar), órgão subordinado à Presidência do Conselho dos Ministros, divulgou um comunicado em que pretende lançar um observatório do racismo no esporte em 2020. O assunto foi colocado em pauta após casos recorrentes do crime no país.

No Brasil, desde 2014, o Observatório da Discriminação Racial no Futebol tem o objetivo de monitorar e divulgar casos de racismo, além de produzir ações afirmativas no futebol brasileiro, como a ação do último sábado (12) no jogo do Fluminense e Bahia, pela 25° rodada do Campeonato Brasileiro, no Maracanã.

Roger Machado e Marcão com a camisa do Observatório da Discriminação Racial no Futebol (Foto: Divulgação/EC Bahia)

A ocasião foi marcada pela única rodada deste ano em que técnicos de ambos os clubes são negros. Roger Machado, pelo tricolor baiano, e Marcos Aurélio, o Marcão, pelo clube carioca. Em entrevista coletiva, Roger Machado contextualiza de forma resumida o histórico da escravidão e do racismo no país e a relação com o futebol.

“Com relação à campanha, não deveria chamar atenção ter repercussão grande dois treinadores negros na área técnica, depois de ser protagonistas dentro do campo. Essa é a prova que existe o preconceito, porque é algo que chama atenção. A medida que a gente tenha mais de 50% da população negra e a proporcionalidade não é igual. A gente tem que refletir e se questionar. Se não é há preconceito no Brasil, por que os negros têm o nível de escolaridade menor que o dos brancos? Por que a população carcerária, 70% dela é negra? Por que quem morre são os jovens negros no Brasil? Por que os menores salários, entre negros e brancos, são para os negros? Entre as mulheres negras e brancas, são para as negras? Por que que, entre as mulheres, quem mais morre são as mulheres negras? Há diversos tipos de preconceito. Nas conquistas pelas mulheres, por exemplo, hoje nós vemos mulheres no esporte, como você, mas quantas mulheres negras têm comentando esporte? Nós temos que nos perguntar. Se não há preconceito, qual a resposta? Para mim, nós vivemos um preconceito estrutural, institucionalizado. Quando eu respondo para as pessoas dizendo que eu não sofri preconceito diretamente, a ofensa, a injúria, ela é só o sintoma dessa grande causa social que nós temos. Porque a responsabilidade é de todos nós, mas a culpa desse atraso, depois de 388 anos de escravidão, é do Estado, porque é através dele que as políticas públicas, que nos últimos 15 anos foram instruídas, que resgataram a autoestima dessas populações, que ao longo de muitos anos tiveram negadas essas assistências básicas, elas estão sendo retiradas nesse momento. Na verdade, esses casos que vêm aumentado agora, de aumento de feminicídio, homofobia, os casos diretos de preconceito racial, é o sintoma. Porque a estrutura social, ela é racista. Ela sempre foi racista. Nós temos um sistema de crenças e regras que é estabelecido pelo poder, e o poder é o poder do Estado, é o poder das comunicações, é o poder da igreja. Quando esses poderes não enxergam ou não querem assumir que o racismo existiu e não querem fazer uma correção nesse curso, muitas vezes dizem que estamos nos vitimando, ou que há um racismo reverso. A gente precisa falar sobre isso. Precisamos sair da fase da negação. Nós negamos. ‘Ah, não fala sobre isso’. Porque não existe racismo no Brasil em cima do mito da democracia racial. Negar e silenciar é confirmar o racismo. Minha posição como negro na elite do futebol, é para confirmar isso. O maior preconceito que eu senti não foi de injúria. Eu sinto que há racismo quando eu vou no restaurante e só tem eu de negro. Na faculdade que eu fiz, só tinha eu de negro. Isso é a prova para mim. Mas, mesmo assim, rapidamente, quando a gente fala isso, ainda tentam dizer: ‘Não há racismo, está vendo? Vocês está aqui’. Não, eu sou a prova de que há racismo porque eu estou aqui.”

No mesmo sábado, Lucas Santos, atleta do Vasco que está emprestado ao CSKA, na Rússia, compartilhou um vídeo no qual um policial militar atira e agride com chutes a população da comunidade Para-Pedro, no Rio de Janeiro, durante protesto pela morte do garoto Kelvin Gomes, de 17 anos. O menor foi baleado em uma barbearia na última sexta-feira (11).

Casos como esses não param por aí. Os recentes episódios de discriminação racial ocorridos nas partidas de futebol demonstram, nitidamente, que o preconceito ainda é uma ferida aberta que envergonha a todos que buscam um propósito diferente, de lazer e entretenimento, no futebol.

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