O tal futebol moderno…

“Último terço do campo”, “externo”, “pisar na área”, “nível de enfrentamento”, “box to box”. Se você acompanha o futebol de perto, certamente já ouviu essas expressões sendo faladas por algum personagem do esporte. Esses termos são a prova de que o chamado “esporte bretão” vem adquirindo uma nova identidade, denominada de futebol moderno.

A palavra “moderno” traduz o sentimento de transformação. Sentimento este que remete a um novo estilo de jogo e à profissionalização do futebol. Consequentemente, pode remeter também à evolução do nível dos treinadores, as novas funções estabelecidas aos atletas e a utilização de novos esquemas táticos. O doutor em História e integrante do Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol (GIEF) Victor de Leonardo Figols, explica que “entre os anos 80 e 90, houve a globalização do esporte, a espetacularização, a midiatização e a mercantilização que definem o futebol como moderno. Os clubes viram o futebol se tornar uma grande indústria, comandada, sobretudo, pelas grandes empresas. Esse novo futebol do final do século era (e ainda é) o mais moderno que temos hoje”.

Com a especialização dos técnicos e a mudança do jeito de jogar dos clubes, como por exemplo, o goleiro com função de líbero, o volante contribuir mais com o jogo ofensivo, o domínio da posse de bola, dentre outros, acrescentaram as expressões que definem o cenário do futebol atual.

O jornalista esportivo Diogo Marques concorda que muitas das expressões usadas no futebol moderno vieram para facilitar o entendimento do torcedor. “Falar, por exemplo, em ‘último terço do campo’ faz o interlocutor imaginar facilmente o local referido, assim como a expressão ‘fazer o facão’, que é quando o jogador pega a bola e carrega da ponta pro meio. Mas, claro, também existem alguns modismos que pouco influenciam no entendimento, como as mudanças nas nomenclaturas das posições dos jogadores”, comenta o jornalista.

Tudo isso fica mais claro quando escutamos qualquer treinador falar sobre táticas de jogo. De acordo com o técnico de futebol Dado Cavalcanti, a modernidade fica mais visível no fracionamento do jogo em cinco momentos e de acordo com o comportamento de cada equipe nesses respectivos momentos. “Primeiramente, há a organização ofensiva ou quando a sua equipe está com a posse de bola. Em segundo, há a transição defensiva ou quando a sua equipe acaba de perder essa bola. O terceiro momento é com a organização defensiva ou quando o seu adversário possui a posse de bola. Logo, há a transição ofensiva ou quando o seu time acaba de recuperar a bola do adversário. E, por fim, tem o posicionamento e o comportamento de cada jogador diante das bolas paradas”, explica o técnico. Cada comportamento caracteriza o chamado “modelo de jogo” das equipes em cada uma das fases da partida. Por isso, é necessário que haja uma compreensão da situação, noção de espaço, intensidade, entre outros fatores.

O técnico do Afogados da Ingazeira Futebol Clube, Pedro Manta, também fala sobre isso ao dizer que o futebol moderno trata-se de um jogo coletivo com movimentação, de forma organizada, intensa e sistematizada. “O esporte passou por mudanças nos últimos anos no estilo de jogo, na estratégia e na tática, tornando as equipes mais compactas em campo, com posse de bola e realizando um jogo apoiado entre os seus jogadores”, analisa Pedro Manta.

Um dos jogadores da atualidade é o chamado “jogador polivalente”, que desempenha diversas funções durante a partida. O brasileiro Fabinho, atual jogador do Liverpool-ING, é um exemplo claro desse tipo de jogador. Sabe atuar como lateral-direito e também como volante. O austríaco David Alaba, do Bayern de Munique, atua como zagueiro ou lateral. O brasileiro Neymar, que atua no Paris Saint-Germain, é o exemplo mais famoso que se tem hoje, pois desempenha funções como atacante, ponta e meio campo. Quanto aos treinadores que adotaram as práticas do futebol moderno, tem-se o espanhol Pep Guardiola (Manchester City-ING), o alemão Joachim Löw (Seleção Alemã), o português José Mourinho (Manchester United-ING) e o francês Zinédine Zidane (Real Madrid-ESP).

Em vista disso, pode-se dizer que o futebol não se modernizou somente dentro do campo como também fora das quatro linhas. Uma das principais características do futebol moderno são as chamadas “arenas” – estádios modernos que oferecem mais conforto ao torcedor, pois cada vez mais os jogos se parecem a verdadeiros espetáculos devido a sua serie de patrocinadores esportivos e interatividades com os torcedores.

Devido à influência do Marketing, o futebol deixou de ser uma mera partida, tornando-se um mundo de negócios que movimenta grandes receitas para as equipes envolvidas.

De acordo com um estudo realizado, em fevereiro de 2019, pela empresa especializada em Marketing Esportivo Sports Value, o Palmeiras, time brasileiro que possui a arena Allianz Parque, faturou com receitas oriundas de seu estádio US$ 140 milhões somente no ano de 2017. Porém, este valor sequer se aproxima dos principais clubes da Europa. Para se ter uma ideia, o décimo clube no continente que mais faturou com seu estádio foi o Tottenham, da Inglaterra, com US$ 480 milhões arrecadados no mesmo período.

Fonte: Sports Value
Fonte: Sports Value

A realização da Copa do Mundo de 2014 no Brasil fez com que o Governo Federal financiasse a construção e reformas de várias estádios espalhados pelo país, como a reforma do Maracanã, no Rio de Janeiro-RJ, e do Beira Rio, em Porto Alegre-RS, e a construção das arenas nos estados de Amazonas, Mato Grosso, Pernambuco, dentre outras. Consequentemente, houve uma alteração no público-alvo devido à modernização, já que ao renovar os estádios, os torcedores de maior poder aquisitivo passaram a frequentar esses ambientes, enquanto os de baixa renda foram prejudicados e “ficaram de fora”. Essa troca de público alterou a rotina desses torcedores, que com as novas exigências, precisaram se adaptar a um novo contexto de torcer.

À prova disso é a construção da Arena Corinthians no ano de 2014. Com base nos borderôs do site oficial da CBF, um ano antes, o Sport Clube Corinthians Paulista arrecadou R$ 1.149.973,50 pela última partida do ano (rodada 37) realizada no antigo estádio, o Pacaembu, do Campeonato Brasileiro da série A. Nessa época, o valor médio dos ingressos cobrados era de R$ 55,56. Com a Arena Corinthians, o clube arrecadou R$ 2.753.362,50 também pela última partida realizada (rodada 38) em seu novo estádio, com valor médio de R$ 234,85. Ou seja, houve um aumento de mais de mil por cento dentro de apenas um ano (2013 a 2014) e a arrecadação quase dobrou devido o alto valor cobrado nos ingressos.

Tabela realizada para compreensão da diferença de valores cobrados antes e depois da construção da Arena Corinthians (Fonte: Julianne Guimarães)

Essas mudanças de valores não são exclusividades do Brasil. De acordo com o comentarista esportivo da ESPN do México, o inglês Tom Marshall, “em muitos países europeus, como a Inglaterra, assistir aos jogos em grandes estádios pertence, atualmente, às classes mais altas, quando aproximadamente nos anos 60 pertenciam às classes de trabalhadores de fábricas”, diz Marshall, que também é formado em Relações Internacionais.

O jornalista esportivo da ESPN Brasil, Gian Oddi, opina que “é preciso encontrar um meio termo no valor dos ingressos cobrados. A Alemanha é o melhor exemplo disso, porque não viveu a elitização que viveu o futebol inglês e está acontecendo em alguns clubes brasileiros, porque a Alemanha determina que os preços dos ingressos nos estádios tenham que acompanhar proporcionalmente a renda média da população. Então, se você tem 10% de pobres na Alemanha, você vai ter que ter 10% dos lugares do estádio reservado a essas pessoas de baixa renda. Acho que isso acaba sendo legal porque você tem também possibilidade de assistir a um jogo de futebol de maneira diferente em um mesmo estádio”, explica Gian.

Mesmo com a modernização dos estádios, um problema ainda a ser tratado é a violência no futebol. Para Tom Marshall, “em outros países, como a Argentina, muitas vezes as torcidas organizadas tornam o ambiente desagradável para as famílias e regularmente há violência. Por isso, é preciso buscar um meio termo para que os clubes possam ter ingressos para os torcedores tradicionais, estes que também têm o seu lugar, e, sobretudo, deve haver segurança para todos que estão assistindo ao espetáculo”, complementa o comentarista.  

A implantação dos interesses empresariais no esporte e a consequente modernização do futebol restringiu o acesso do público ao estádio. Um exemplo foi a resolução da Confederação Sul-Americana de Futebol (CONMEBOL), que ampliou, em 2019, as diretrizes do seu Regulamento de Segurança. Regulamento este que, dentre diversos itens, vetou o uso de apitos, “bandeirões” e papel picado utilizados pelas torcidas dentro dos estádios.

O departamento médico é outro ponto de evolução do esporte. Com o avanço da tecnologia, lesões que antes demoravam meses ou até mesmo anos para serem curadas, hoje, levam tempo recorde com uma grande chance de obter sucesso e os jogadores poderem voltar ao gramado mais rápido. O médico esportivo do Clube Náutico Capibaribe, Dr. Rodrigo Sales, pôde esclarecer mais sobre o assunto. “Hoje a medicina esportiva evoluiu muito. Nós utilizamos a termografia para prevenir lesões e identificar os atletas que estão com risco de lesão, então, teoricamente, nós conseguimos pegar a lesão no estágio de pré-lesão, antes de ela acontecer, algo que antes não era possível”, explica o especialista.

De acordo com o mesmo, alguns métodos de prevenção de lesões utilizados na medicina esportiva moderna é a crioimersão, em que o atleta entra em uma banheira de gelo após treinos ou jogos intensos, além do uso do GPS para medir não só a distância percorrida entre um treino ou um jogo, como para saber os picos de aceleração que o atleta possui. “Em resumo, a tecnologia evoluiu no sentido de monitorizar melhor o atleta e conseguir quantificar a carga que ele foi submetido. Quando você quantifica a carga, você consegue identificar o quanto ele precisa descansar ou não”, continua o Dr. Rodrigo Sales.

O preparo físico dos atletas também foi outro ponto que melhorou muito e trouxe outra dinâmica de jogo. As evoluções na alimentação, no acompanhamento físico e psicológico dos atletas foram primordiais para tornar o futebol ainda mais moderno. Com esses avanços, os jogadores passaram a desempenhar com excelência suas funções dentro do campo. Consequentemente, ter um bom descanso é fundamental para ajudar no processo de recuperação. Segundo o preparador físico e analista de desempenho no futebol profissional do América Futebol Clube, Luciano Sousa, “é fundamental que haja descanso, pois se trata de um esporte de alta intensidade e variações físicas em que há, constantemente, a perda de peso e desidratação de jogadores, então, é preciso repouso e recuperação em até 72 horas para voltar a jogar”, explica Luciano Sousa.   

Para completar as evoluções nesse esporte, houve a implantação do Árbitro Assistente de Vídeo (VAR). Seu objetivo é checar lances duvidosos durante a partida, como validação de gols, aplicação de cartões vermelhos, pênaltis e reconhecimento correto de jogadores. Inserido apenas recentemente, no ano de 2016, é algo que ainda divide muito a opinião dos torcedores e também de jornalistas e comentaristas esportivos. Nesse mesmo ano, a FIFA introduziu o recurso pela primeira vez durante o Mundial de Clubes, realizado no Japão. Segundo Tom Marshall, o árbitro de vídeo é um progresso no meio futebolístico. “Em minha opinião, o VAR é algo muito bom, mas ainda tem que melhorar a sua eficiência dentro do campo para não cometer erros que prejudiquem a um­a das equipes”, opina o comentarista.

Todas essas modernidades que classificam o futebol como “moderno” transformaram um contexto histórico de décadas passadas. Um exemplo claro disso é que os dois maiores jogadores da história do futebol mundial atualmente – Cristiano Ronaldo e Lionel Messi –, possuem uma combinação de profissionalismo e recursos tecnológicos para seguirem jogando em alto nível. Além disso, países que nunca se pensava que iriam disputar vaga em uma Copa do Mundo terminaram surpreendendo a muitos como foi o caso da Seleção da Croácia, vice-campeã da Copa do Mundo de 2018.

O­­­­­ jornalista Gian Oddi deixou a mensagem: “O futebol é, sim, um esporte muito democrático, não é a toa que é bastante popular. Por isso, seria legal se a gente não vivesse essa divisão tão radical entre ‘há um tipo de futebol moderno’ e ‘há um tipo de futebol antigo’. O melhor é encontrar um meio termo pra tudo, e, sobretudo no que diz respeito à frequência nos estádios e a experiência de assistir a um jogo de futebol. Pra tudo, é necessário encontrar o equilíbrio”.

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