À beira da demissão: muita cobrança e poucas mudanças

Provavelmente você já deve ter sido impactado nos últimos dias pelo texto publicado no Instagram da atleta do Santos, Patricia Sochor, em que a mesma menciona a seguinte frase em diversas partes do desabafo: “nos pedem para ser profissionais, mas…”. Mas vai além do discurso exposto pela jogadora.

A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) recebeu recentemente diversas cobranças sobre o futebol feminino. Uma delas foi realizada pelas ex-atletas da Seleção Brasileira Juliana Cabral, Marcia Taffarel e Leda Maria, junto da pesquisadora da Universidade do Rio Grande do Sul, Silvana Goellner, além dos levantamentos de dados da jornalista Lu Castro.

Elas disseram que a Confederação Brasileira ignorou os estudos realizados anteriormente, e este assunto veio à tona após a queda do Brasil para a França nas oitavas de final da Copa do Mundo.

Alguns motivos não ficaram bem claros, nem para elas e nem para a torcida. Um deles tem até nome e sobrenome: Oswaldo Fumeiro Alvarez, mais conhecido como Vadão. Ele, que está ao lado de Marco Aurélio Cunha, coordenador de futebol feminino da CBF, há mais de quatro anos na seleção, integram o grupo de trabalho sobre futebol feminino estruturado em 2016.

Este grupo, que tinha como objetivo o desenvolvimento da modalidade e subsidiar o Comitê de Reformas, teve um documento com mais de 11 recomendações aprovadas, mas ao que parece, quatro anos se passaram e nada foi implementado.

Foto: Lucas Figueiredo/CBF

É fato que as mulheres ainda são pauta secundária na instituição, e mesmo diante da visibilidade conquistada na Copa do Mundo, a insatisfação com o trabalho de Vadão e Marco Aurélio resulta na falta de vontade e planejamento estratégico para atingir outros patamares, assim como ter a projeção e reconhecimento que já existem em outros países para a categoria.

Uma situação diferente que está acontecendo na cidade de São Paulo é a atenção e ações especiais para as bases femininas, projeto que foi aprovado pelo Comitê de Reformas e que não foi implementado ainda em outras regiões do Brasil. Um dos motivos pelo qual a cidade paulista se destaca no projeto é a liderança da ex-capitã da seleção, Aline Pellegrino, como Diretora de futebol feminino na Federação Paulista. Será que sempre dependeremos de uma mulher que já passou e sofreu por isso para impor algo? Esperamos que não.

Vamos combinar que a CBF já entendeu que o futebol feminino tem visibilidade sim, não há dúvidas sobre isso. E nós sabemos que, querendo ou não, teve uma evolução, mesmo que pequena, na categoria, mas isso de forma alguma tira da CBF a responsabilidade de fazer melhorias dentro da base nos clubes, além de acompanhar as ações realizadas fora deles também.

Assim como as ex-atletas já disseram e as atuais reforçam o tempo todo, precisamos que tenham mais organização, monitoramento, aprimoramento, direcionamento e planejamento para o futebol feminino, assim como existe no masculino. Nós nunca evoluiremos se nada disso mudar, e precisamos ter esse cuidado e insistência até que haja desenvolvimento.

Abaixo, você confere algumas ações aprovadas pelo Comitê de Reformas da CBF, em 2016 que ainda não foram implementadas:

  • Criação de um departamento específico do Futebol Feminino na CBF;

  • Metodologia de trabalho para orientação do Futebol Feminino;

  • Realização de um curso específico para treinadoras;

  • Normatização das competições organizadas por terceiros e chanceladas pela CBF;

  • Implantar Campeonatos de Categorias de Base sub-17 e sub-20, com o apoio de plano de marketing;

  • Criação de um sistema para cadastramento e monitoramento de atletas vinculadas às seleções. O trabalho chegou a ser efetivado em parte pela comissão técnica que acabaria sendo demitida;

  • Criação de metodologia de trabalho pela CBF para direcionamento e orientação geral nas diferentes categorias do futebol feminino;

  • Aprimoramento da categoria sub-15;

  • Pesquisa nacional do futebol feminino buscando a elaboração de um diagnóstico sobre número de praticantes, equipes, regiões.

Sabemos que com ou sem Vadão, já não importa muito, mas precisamos de mudanças e, principalmente, que as ações citadas acima sejam de fato executadas, embora tenhamos em mente que, se há quatro anos com ele lá nada evoluiu, podemos concordar que é melhor colocar alguém que faça isso se concretizar.