O lugar da Clara é no gol!

Durante o mês de junho, o que muito se falava era sobre o apoio às mulheres no futebol e o quanto precisavam ser reconhecidas. Enquanto acontecia a Copa do Mundo de futebol feminino, muitas questões foram levantadas a fim de fazer com que as pessoas repensassem os conceitos equivocados sobre as mulheres no futebol.

Após tanto se falar em mudança de conceitos, é necessário saber que nada pode ser definitivamente mudado, se não começar a trabalhar a raiz do problema: as meninas não têm muito apoio nas bases.

A respeito disso, trazemos um caso que aconteceu, e ganhou repercussão na última semana: uma menina, cujo sonho é ser jogadora de futebol, foi proibida de jogar um campeonato por uma atitude machista.

Para contarmos esta história, tivemos a ajuda da mãe, Renata Rodrigues, que conversou com o Rainhas do Drible.

A pequena Clara tem 10 anos e começou a carreira esportista no judô. Com pouco tempo, já se destacava por sua disciplina e determinação. Mas aos 7 anos, ela descobriu o futebol e já tão nova se mostrou determinada.

“A Clara começou a jogar com 7 anos. O irmão dela ia em uma aula experimental, aí ela disse que queria ir também. Perguntei se não teria medo porque só tinha meninos, e ela respondeu sem pensar que não”, disse Renata.

Foi no gol que Clara se sentiu mais confortável. “Desde então, foi amor e mais amor por esse esporte. Mas quando ela se descobriu no gol, foi sem igual! Tanto que a frase do WhatsApp dela é ‘meu lugar é o gol’”.

Com o futebol no sangue, já que seu avô também foi goleiro, a menina teve o total apoio da família para seguir e caminhar rumo ao sonho de vestir a camisa da Seleção Brasileira.

“Nós sempre apoiamos, e nunca pressionamos o que ela escolhe fazer. Já fez judô, onde se saiu muito bem. É sempre assim: quer fazer? Então faça, mas faça bem feito, se dedique, se esforce, dê o seu melhor. Quando começaram as competições de judô, eles quiseram participar. Apoiamos e sempre estávamos juntos com eles. Nós valorizamos muito o esporte, independente de qual seja. Então ela nunca se sentiu só, sempre estivemos com ela!” – disse Renata, com orgulho da filha.

Mas, assim como para toda menina, se destacar em um time misto não é fácil. E para Clara também não foi. Entretanto, graças a determinação, vontade e paixão pelo que faz, Clara tem o apoio não somente da família, como também do time. E ela estava muito animada para disputar um campeonato, o que é sempre um passo importante para todo atleta.

Clara joga no sub-10 do Tuno Lusa, e iria com a equipe para Santa Catarina disputar a 17ª Supercopa das Américas de Futsal, promovida pelo Super Esporte 10. Mas devido a um ato revoltante e machista, ela não foi inscrita.

Foto: Arquivo pessoal da atleta

“Não deu para se inscrever, porque o organizador do evento não aceitava menina. E foi um choque por que estávamos nos preparando para isso. Vendemos doces, sacolé, bombons, tudo para arrecadar dinheiro para a passagem. Ela saía pelas ruas com os brigadeiros vendendo. Tirou notas boas na escola, não ficou de recuperação, se programou guardando dinheiro para isso. Enfim, saber que todo sacrifício foi em vão foi difícil”, comentou a mãe sobre o quão empolgada estava Clara.

Ela também conta como foi a difícil tarefa de ter que explicar para a filha e como ela se sentiu.

“Nós ficamos muito abalados, mas tentamos explicar para ela que aquilo era uma regra do torneio. Mas então ela questiona assim: mas por que essa regra? Isso não é justo! Todos vão, eu também deveria ir. E tudo o que fizemos? Não adiantou nada! E saiu triste. Muitas vezes sentada do meu lado dizia: mãe, tô tão triste! Eu perguntava o porquê e ela: porque não vou poder ir. Eu queria muito ir, é o meu sonho”.

Renata diz que Clara é uma criança séria fora de casa, mas dentro é uma moleca de tão brincalhona. E não a ver sorrindo ou brincando entristecia demais. “Quando fui conversar com ela, percebi que estava segurando o choro”, revelou a mãe.

Renata achou uma luz no fim do túnel para ajudar sua filha quando conversou com o Maurício, treinador e dono do Tigres Team, time em que Clara também treina. Ele perguntou a ela como estava a viagem, e Renata explicou a situação. Maurício ficou indignado, pois acompanhou as vendas para juntar dinheiro.

“Ele me pediu o regulamento, me explicou muita coisa e chamou algumas pessoas para me auxiliarem no que poderia ser feito. Vi uma ponta de esperança, mas não disse nada pra ela, para não criar expectativas de novo”, contou. Foi a partir disso que as coisas finalmente foram acontecendo, e a luta pela causa de Clara ganhou a proporção que está hoje.

As pessoas orientaram Renata a fazer o abaixo-assinado. Daí por diante, as coisas foram acontecendo. Ao contar para a Clara, a dúvida da pequena goleira era se ela conseguiria entrar com as mil assinaturas. Não se tinha resposta, mas era uma tentativa.

A jogadora de apenas 10 anos topou gravar um vídeo contando a história, para que todos vissem o quão importante era para ela. E o vídeo viralizou!

O abaixo-assinado, que se encontra no site Petição Popular, tem por nome Deixem as meninas jogarem, e conta com 4.148 assinaturas, graças ao apoio de pessoas que reconhecem a importância de apoiar os sonhos de alguém e incentivá-la no esporte.

O problema está tão enraizado que coloca o sonho de uma criança em jogo ao fazê-la passar por tal situação no esporte que tanto ama. Clara coloca todas as esperanças em um abaixo-assinado para que possa participar do campeonato de futsal.

Nas redes sociais, também é possível ver pessoas que não analisam o contexto do ocorrido e saem falando qualquer coisa. Para essas pessoas, fiquem cientes que o regulamento de futsal permite times mistos até os 13 anos de idade.

Clara Rodrigues é uma menina de 10 anos de idade, que ama futebol e tem um sonho: ser goleira e, um dia, defender o seu país. E esse sonho não será interrompido. Mesmo com essa atitude machista, Clara segue lutando por ele com o apoio da família, dos amigos e de todos que apoiam as mulheres no futebol.

Lutaremos juntos, ou melhor, lutaremos JUNTAS, porque o Rainhas dá cartão vermelho para atitudes como esta.