Novos tempos: o que há por trás da fala do presidente do PSG

Por: Thais Nogueira

Esta semana, o discurso vindo de Nasser Al-Khelaifi, presidente do Paris Saint-Germain, surpreendeu a imprensa e os torcedores. Em tom de crítica, o mandatário disparou: “Não quero mais nenhum comportamento de celebridade”.

Para muitos, o recado foi claramente endereçado a Neymar. O camisa 10 da Seleção Brasileira e do time parisiense não vive uma boa fase, tanto na vida profissional quanto na pessoal.

Os desentendimentos com alguns colegas de clube; a vinda dele ao Brasil durante o carnaval, mesmo estando lesionado; e a agressão ao torcedor podem ser apontados como a razão da fúria de Nasser. Mas não é bem assim. Isso é só a ponta do iceberg, e o problema é mais profundo do que se vê.

A vinda do brasileiro foi uma aposta ousada do PSG. Desde que assumiu o comando do clube, em 2011, contratar grandes estrelas nunca foi um problema para Al-Khelaif. Se Ibrahimovic, Beckham e mais um tanto de jogadores badalados não foram capazes de trazer a tão sonhada Champions League, a última cartada foi investir todas as esperanças – e o dinheiro – em um único jogador. E não deu certo.

Porém, Neymar não tem culpa disso. Há oito anos, muito antes da vinda dele, o projeto PSG, como o próprio catariano se refere, não vem funcionando como o esperado. Essa situação toda lembra o famoso slogan de uma empresa de cartões de crédito. A tal propaganda insistia em dizer que: existem coisas que o dinheiro não compra.

Crédito: AP Photo/Michel Euler

O dinheiro não é capaz de comprar, por exemplo, o comprometimento por parte do jogador ao defender uma camisa. O que fez Cristiano Ronaldo se dedicar tanto ao Real Madrid é o mesmo que faz Messi continuar dando o seu máximo no Barcelona: o orgulho em fazer parte da história de determinado clube. Porque não importa quanto talento ele tenha, jamais um profissional será maior do que a instituição.

Antes tarde do que nunca, Al-Khelaif quer despertar isso em seus atletas. Constatou que dinheiro nenhum traz essa mentalidade.

A ideia inicial de usar o PSG como ferramenta de promoção do Catar, já não satisfaz mais o cartola. Simplesmente há uma conta que não fecha: as sucessivas eliminações na Champions, obsessão declarada do presidente, contrastam com todo o investimento feito. O monopólio exercido pelo clube no Campeonato Francês é entediante e não serve de parâmetro para colocá-lo entre os gigantes europeus. Eis aí a fonte de toda a irritação de Al-Khelaif.

Se mesmo com o escândalo envolvendo Michel Platini, a FIFA resolver manter o Catar como sede da próxima Copa do Mundo, mais aumenta o interesse em ver o retorno de todo esse dinheiro que vem sendo empregado no PSG há quase uma década. Em tese, o progresso do clube deveria acompanhar toda a expectativa, mais política do que esportiva, que gira em torno do Catar como anfitrião do Mundial.

A próxima temporada europeia reserva várias novidades. A chegada do promissor De Jong ao Barcelona e a estreia de Hazard no Real Madrid são algumas delas. E com aquela declaração, Nasser quis responder à altura. Viu que se quisesse brigar de igual para igual, a mudança teria que começar por ele.

Sem espaço para estrelismo, a mensagem de Al-Khelaif é explícita. Para quem não entender que os tempos mudaram, a porta da rua é serventia da casa.