Sobre o olhar de um técnico

“Tradição” no futebol brasileiro a constante dança das cadeiras com os treinadores nos clubes é intensa durante todo ano. O imediatismo faz com que seja comum a demissão de muitos técnicos durante as temporadas.

Joinville é um exemplo recente desse fato. Após a demissão de Felipe Surian, o então técnico interino Danilo Portugal, foi efetivado. Sua chegada ao clube foi em novembro de 2018 na comissão técnica de Zé Teodoro. O treinador foi desligado em março deste ano, mas o auxiliar seguiu na Arena. Danilo é ex jogador de futebol que teve passagens por diversos clubes brasileiros, incluindo o Goiás, onde passou maior parte de sua carreira, e também passagens pelo exterior. Como treinador comandou os times de base do Atlético Goianiense e Santa Cruz.

O treinador afirma estar com pés no chão, mesmo começando com uma vitória, e não está pensando a longo prazo. Danilo quer se dedicar a esse momento que está vivendo e focar nos próximos jogos. O goiano conversou um pouco com a nossa colunista Janayna Carvalho a respeito do seu trabalho e dos desafios da profissão.

Você já foi jogador e hoje é treinador. Qual você acredita que foi o trabalho mais desafiador profissionalmente?

Os dois são muito difíceis, porém quando você consegue ser atleta profissional as portas para ser treinador se abrem com menos dificuldades. Não quer dizer que tenha facilidade para que isso aconteça, mas te possibilita por ter jogado uma entrada mais aceitável. Mas ser jogador é o sonho de toda criança, a realidade é muito difícil e você tem que abrir mão de muitas coisas. Tem o lado das oportunidades que você tem que aproveita-las e é mais difícil ser jogador porque é uma batalha individual, tem o lado familiar, cultural, da educação, financeiro para fazer testes ou as vezes você vai jogar em um clube que precisa pagar sua moradia é um conjunto que dificulta bastante. Ser treinador tem outras dificuldades. Você precisa ter uma gestão de grupo e você trabalha com jogadores de diversas idades, com nível cultural, educacional, e criação completamente diferentes. Precisa explicar o porquê dos treinamentos que estão sendo dados, descrever os treinamentos é trabalhoso, analisar o seu adversário, a formação da equipe. Mas todos são muito difíceis.

Qual a principal diferença entre treinar atletas da base e do profissional?

Da base eu, como profissional, me pauto no sentido de formação como atleta na parte técnica e formação como pessoa porque a base dependendo da idade é muito novo ou ali na transição da adolescência, está descobrindo coisas novas, então vai cometer erros do ser humano, não falo nem em questão do futebol, eu trabalho essa questão quanto humano. Ao mesmo tempo os jogadores da base são mais fáceis de ser correspondido taticamente, eles querem aprender, querem jogar e acreditam que isso contribuem para que eles sejam titulares e para se montar uma equipe taticamente esse lado da base favorece.

No profissional, não precisa ensinar tanto. Os atletas são rodados já viveram isso, geralmente já sabem fazer questões práticas, ao mesmo tempo você tem que fazer com que eles aceitem o seu trabalho e comprem a ideia que você tem de jogo, porque muitos por terem jogado em diversos clubes as vezes não aceitam por não concordarem mas tudo é conversado, é preciso aprender a se adaptar com esse tipo de situação. Os trabalhos técnicos no profissional são infinitamente mais fáceis, pela qualidade porque com a evolução da idade, repetição do trabalho eles evoluem tanto mentalmente quanto tecnicamente, é mais fácil! Agora gerir o grupo profissional, principalmente quem não está jogando é muito mais difícil. Ele depende do salário, dependem de estar jogando para continuar sustentando sua família, então ele entender que embora ele não está jogando ele é importante seja o maior desafio.

Qual a sua opinião com a famosa “dança das cadeiras” que acontece constantemente com os técnicos brasileiros?

Para mim, o grande problema é cultural. No Brasil se acostumou a mandar o treinador embora porque teoricamente é o mais barato que reformular o elenco. Eu acho que é necessário se criar o hábito de dar tempo para trabalhar. O treinador chega hoje em um clube mais preocupado em permanecer e as vezes até modifica sua maneira de trabalhar, a que ele acredita, por uma que dá resultado imediato para que ele possa ser mantido no cargo. Falta planejamento de alguns dirigentes dos clubes na escolha de seus treinadores, na aposta de médio e longo prazo. Infelizmente vai acabar tendo que criar alguma lei para que não aconteça tanta troca de treinadores, porque acaba de o clube se atole em dividas por multas que precisam serem pagas.

Eu acredito que isso é a receita do fracasso, trocar treinador, não acreditar na metodologia de trabalho, quando se contrata com convicção, dá tempo para, oferecer material humano, tempo para trabalhar pode ser cobrado, mas com menos de um mês, três meses se manda o profissional embora é pouco tempo por todo um todo que o futebol envolve é humanamente difícil se conseguir sucesso assim. Só em equipes que lutam para não cair que isso dá certo, porque o cara tira só da zona de rebaixamento, nunca vi a troca de um treinador com um time que estava mal ser campeão.

Fonte: NSC Total