Luto pela Fúria, vivo pelo Paraná: Dayane, amor tricolor que passou de pai para filha

Quando começamos a falar sobre torcidas organizadas, a maioria das pessoas sempre torcem o nariz, julgam e falam o pior. Mas, eu conversei com uma garota muito bacana que me contou outro lado da organizada que talvez você não conheça.

O começo – Paraná Clube

Dayane Fracaro da Cruz, 21, conta que é filha de ex-jogador de futebol – seu pai quando era mais novo jogou profissionalmente – ela via seu pai escutando, indo aos jogos do Paraná Clube e começou a se interessar em meados de 2008. Em 2009, com onze anos, ela começou a conhecer a torcida, conhecer mais a fundo o Paraná Clube.

Ela conta que sempre torceu pelo Paraná, mas que não era aquele amor forte ainda, porque não entendia muito, e seu pai não a deixava ir aos jogos por ser “perigoso” e porque não considerava futebol “coisa de menina”. Seu primeiro jogo foi dia 31 de outubro, Paraná Clube x São Caetano pela Série B do Brasileiro, e seu pai não a deixou nem vestir a camisa por medo porque eles estavam de ônibus. Mas, nisso entra no ônibus um dos comandos, o Comando Zona Oeste da Fúria, Dayane se arrepiou e apaixonou na hora.

Tanto que no jogo seguinte ela perguntou ao seu pai aonde eles iriam ficar, se na curva ou na reta – curva é onde a Torcida Fúria Independente fica – e foi então que ele disse na reta obviamente, seu pai era muito sério e preferia um lugar mais tranquilo. Dayane ficou chateada porque queria ficar onde a Fúria estava.

Passou um tempo, em 2011, ela ganhou sua primeira jaqueta da torcida de um primo, e conta que nessa época tinha uma loja chamada 100% Hip-Hop em Campo Largo, onde ela mora, que era a única loja que vendia roupas da torcida terceirizada, porque você só encontra essas roupas na sede da Fúria. Ela então comprou uma camisa PP que guarda até hoje e ia ver os jogos na reta com seu pai.

Em 2012, Dayane fez 15 anos e sua única exigência era a bandeira do Paraná Clube em cima do seu bolo, e ela guarda a bonequinha segurando a bandeira do Paraná Clube até hoje. Então começou a namorar com um menino completamente o oposto dela e ela já tinha seus amigos da torcida, que eram filhos dos amigos de seu pai desde 2009, ele então a colocou na parede “ou eu ou o futebol”. Ele era religioso, ela chegou a entrar no grupo de jovens, mas o namoro não vingou, ela escolheu o futebol.

Fúria Independente

Passado um tempo, em 2015, como tinha contato com muitos da torcida, seu namorado atual a encontrou no Facebook e a primeira coisa que ele falou foi “por isso que tenho orgulho de ser Paranista”. Então ela começou a ir mais direto nos jogos com seus amigos, com o aval do pai, mas na curva com a Fúria.

Em novembro, seu pai faleceu, e ela lembra que no último jogo que ele foi, lotou a Vila Capanema e ele vestiu a camisa do Paraná Clube, coisa que não fazia, isso realmente ficou marcado na sua vida.

No velório de seu pai, seus amigos da torcida ficaram ao seu lado, não saíram um minuto sequer do seu lado.

Dayane então começou a ir a todos os jogos com eles, e também começou a namorar com o menino do Facebook que citei a cima, o Emmanuel. Eles faziam parte do Comando Zona Oeste, que ela se apaixonou quando era criança. No primeiro jogo que ela foi sem seu pai com seus amigos, ela desabou, e se recorda que o Paraná ganhou de 4×1, ela gritava lembrando do pai o tempo todo.

Foi então, que ela começou a vivenciar mais a torcida, indo na sede da Fúria, vivendo realmente a ideologia, e conquistando o seu espaço. Muitos se surpreendem com ela, do amor que ela sente pelo Paraná, de tudo que ela sabe e entende, pelo fato de ela ter 21 anos, e dos 21 anos o Paraná ficou 10 na Série B. Mas, Dayane diz que é um amor que passou de pai para filha, algo além.

Quanto a torcida, ela diz que leva muito a sério, vive mesmo a ideologia e da o melhor sempre. Diz que esta ali para dar o seu melhor, por amor, que é uma escolha, saber ponderar os sentimentos raiva x calma, saber o que falar.

Na torcida, ela diz ter encontrado uma família, às vezes estão mais do lado que pessoas da própria família. O maior exemplo foi quando seu pai morreu, que seus amigos não saíram do seu lado. Dayane fala que ali as pessoas são humildes, “gente como a gente”, e isso faz com que você também seja.

Preconceito

Quanto ao preconceito, Dayane sofreu um pouco dentro da família. Como vêm de família tradicional, alguns não aceitam, ela diz ser a ovelha negra. O preconceito ela percebeu, não foi nítido, mas ocorreu, quando ela e seu namorado foram depois de um jogo em uma reunião de família, e no dia seguinte a mãe dela disse que se surpreendeu porque achou que ele seria maloqueiro. Ela conta que sua mãe não era preconceituosa, mas que ela falava assim por causa da família e do que os outros vão pensar etc.

Foi então que ela fez um aniversário na casa dela, e a família dela os amou, disseram que acharam eles “comportados”, porque achavam que ia fazer algazarra e no final foi tudo diferente do que imaginaram, viram que eles realmente cuidam dela e são amigos leais para carregar para a vida.

Quanto ao machismo ela disse que é muito tranquilo, que o presidente da Fúria é muito aberto e sempre pede opinião, que ele não diferencia homem de mulher.

Quando perguntei a Dayane se ela se arrepende de algo em relação a torcida, ela diz que sim, de não ter começado antes. “Damos tudo em cada jogo, o nosso clube não está nas melhores ondas, fez uma campanha de marketing 2017 sensacional e a torcida estava lá, lotando a Arena da Baixada e não é porque é a minha torcida, mas a padronização dela é a melhor, é o branco, não adianta não tem, não são vários tons, é o branco. É a minha torcida entende, e eu sempre vou defender e vou estar ali”.

Foto: Dayane Fracaro