Anos depois, a luta ainda continua: Vasco e Bangu carregam um marco histórico na trajetória

Hoje é dia de semifinal no Maracanã. Dois times disputam a vaga da final do Campeonato Taça Rio, mas no meio desse futebol todo, temos também um marco de luta histórico. Por quê? Eu explico.

Já debatemos várias vezes aqui as vertentes ruins e obscuras que encontramos no meio do nosso amado futebol, e o racismo é uma delas. Infelizmente, até os dias atuais, cenas de discriminação racial são vistas em campo de formas absurdas, inclusive na almejada Copa do Mundo. O fato é que a gente combate isso com atitudes, que sim, precisam sair de posts na internet e ir para a vida real. Foi o que o Vasco e o Bangu, times que se enfrentarão hoje, já fizeram no passado para proteger seus respectivos elencos.

O caso do Vasco é o mais conhecido na mídia. Em 1923, no começo da sua trajetória, foi campeão carioca com uma equipe que tinha sete negros e pobres, causando espanto nos rivais, já que naquela época o fator de desempenho também era o racial, e isso continua nos dias atuais mesmo que de forma mais sucinta. No ano seguinte, foi criada uma nova federação no Rio de Janeiro, a Amea (Associação Metropolitana de Esportes Athleticos), que convidou o clube para participar da Liga com uma condição: excluir 12 jogadores que foram investigados e acabaram não aprovados, baseando-se no critério do analfabetismo e das condições financeiras, mas não se engane, todos eram negros.

Foi ai que o Vasco deu a sua resposta conhecida como histórica. O clube se recusou a participar da Liga e foi jogar outra, com times menores, da qual foi campeão: a Liga Metropolitana de Desportos Terrestres.

Já o Bangu leva o título de ter tido o primeiro jogador negro do time, o operário Francisco Carregal. Além disso, entre 1907 e 1909, o clube se afastou da Liga Metropolitana de Football, órgão que na época organizava o Campeonato Carioca, por causa da divergência com os outros clubes em relação ao tratamento com atletas negros. A Liga chegou a publicar uma nota de proibição à “pessoas de cor” de participarem de seus torneios, incluindo a exclusão dessas pessoas nas arquibancadas. Desejavam que o futebol fosse coisa de rico e branco, de privilegiados.

Ambos os times sofreram consequências das suas decisões, com dificuldades para voltarem a alguns campeonatos sem precisar alterar suas escalações, mas ainda assim eles lutaram, provando que a mudança vem da revolução e que um esporte que une paixões certamente não tem absolutamente nada a ver com nenhum tipo de preconceito.

Etnias, religiões, condições econômicas não têm a ver com potencial de ninguém. Nós queremos um jogador que defenda e honre a camisa do nosso time em campo, apenas!

Hoje, as duas equipes se enfrentam sabendo que já ganharam uma causa há anos, quando se afirmaram time de todos. Esse é o futebol que eu quero! Que deveríamos todos querer!

Foto: Arquivo do museu de Bangu/Reprodução GE