Um fim de semana de futebol e contraste entre as torcidas

O luto é, sem dúvida, o momento mais difícil pelo qual uma pessoa pode passar. É nessa hora que estamos frágeis, é nesse momento que todo ato de consolo, de solidariedade, por mais que pareça pequeno, na verdade significa um grande gesto. Assim como o trágico acidente aéreo com o voo que levava o time da Chapecoense para uma disputa internacional, o trágico acontecimento no CT do Flamengo, George Helal, chocou não somente os brasileiros. A repercussão pelo mundo rendeu inúmeras homenagens desde a hora que em foi divulgado o incêndio até o dia de hoje.

No futebol internacional foram muitos os gestos de respeito para com as vítimas, os familiares e ao Clube de Regatas do Flamengo. Não somente os estrangeiros fizeram seu ato solidário, os clubes nacionais também prestaram seu apoio. Porém, o ato mais comovente vem dos clubes e torcidas rivais do rubro-negro carioca. Fluminense, Botafogo e Vasco, os outros três grandes do futebol carioca e principais rivais do Flamengo, tanto os clubes quanto seus torcedores deixaram suas diferenças de lado para colocar o lado humano acima de qualquer rivalidade. Foram desde hastags de apoio e força sendo subidas nas redes sociais, até encontros de torcedores, que foi marcado por um abraço simbólico entre as torcidas botafoguenses, cruzmaltinas, tricolores e rubro-negras nesse ultimo sábado (09) no CT do Flamengo.

Em contraste com um cenário onde a rivalidade deu lugar a harmonia e o “confronto” deu lugar a paz temos um episódio também nacional onde, mais uma vez, registramos uma briga entre torcidas antes de um clássico estadual.

Dessa vez, o fato ocorreu em Alagoas antes do clássico entre CSA e CRB. Ironicamente, isso ocorre na mesma tarde em que vimos um ato solidário relatado pela nossa querida colunista Sarah Rodrigues sobre um time cearense doar parte da renda arrecadada para ajudar as famílias das vítimas fatais. Tudo aconteceu próximo ao terminal de ônibus do bairro Benedito Bentes, na parte alta de Maceió, horas antes dos clubes enfrentarem-se no Estádio Rei Pelé. As imagens gravadas foram parar nas redes sociais onde é possível ver torcedores aparentemente de organizadas agredindo uns aos outros com pedras e até mesmo é possível ouvir barulhos parecidos com disparos. A polícia foi acionada para ir até o local, mas ninguém foi levado para depor porque quando as autoridades chegaram a confusão havia se dispersado.

Em um momento pelo qual todos estão fragilizados, em que os clubes são uma só camisa e as torcidas possuem um único grito de um minuto de silencio, o acontecimento em Alagoas, nos faz ter que bater novamente na tecla que pedimos: paz nos estádios e fora deles.

Deveríamos ter aprendido há muito tempo que torcer não é brigar e que agressão não levará seu time a fazer uma boa partida e a ganhar. A rivalidade entre escudos não é para significar ódio. Não é porque sou rubro-negra que vou agredir, seja verbal ou fisicamente, um cruzmaltino. Não é porque sou alvinegra que tenho que odiar um tricolor. Não generalizamos os torcedores presentes nesse clássico, sabemos que nem todos participam de atos como esse, mas o que fica de lição é: está na hora de repensarmos nossos atos perante os outros torcedores. Uma boa rivalidade é bonita quando representada através de uma música que exalte seus títulos; suas conquistas; seus grandes ídolos e seus feitos heroicos em uma final ou até mesmo suas grandes jogadas em uma partida comum (que nunca é uma partida comum), quando as brincadeiras (leves e de bom gosto), são levadas como brincadeiras e o direito de resposta lhes são dadas. Todos nós já tivemos o prazer de zoar um amigo na segunda-feira de manhã após o time dele perder, e mesmo assim, vocês deram boas risadas em seguida e continuaram a ser amigos.

Quão bonito é ver os clássicos no futebol, as grandes torcidas apoiando seu clube do coração, vários títulos reunidos, de onde saem as grandes histórias para contar de geração em geração. Essa é a mensagem principal, que a boa rivalidade é também aquela cuja provocação é saudável e legal desde que esta não cause danos físicos, morais e mentais a terceiros.

Reprodução: Vinícius Castro/UOL