2 anos depois: crônica de uma noite que nunca acabou

Por: Maggie Paiva

Eu tinha que estar no trabalho às nove horas. Então, quando acordei e verifiquei que pouco passava das seis da manhã, eu sabia que podia dormir mais um pouco, o que era ótimo. Na teoria, era só mais um começo de dia comum. Na prática, havia algo diferente, mesmo que eu ainda não soubesse o que.

Então eu vi, ali no canto da tela, pequenas e barulhentas indicações de que aquela manhã estava longe de ser como qualquer uma das outras, daquela ou de semanas anteriores, daquela ou de semanas que eu ainda viveria.

O celular vibrava na minha mão, as notificações se amontoando em um pequeno espaço no canto superior da tela do aparelho. Cada uma querendo ser vista primeiro, ser mais urgente aos meus olhos ainda sonolentos. Mas apesar do sono, meu coração já estava acelerado, a apreensão diante do que eu sabia que seriam más notícias – não o que eu imaginava, no entanto.

Novembro não vinha sendo um mês fácil. Duas ou três semanas antes minha mãe havia sofrido um acidente a caminho do trabalho e agora estava no hospital com a perna quebrada. De repente, eu lembrei da ligação que me deu a notícia, em um horário tão parecido com aquele. Eu tremia só de reviver o instante…

Aplicativos abertos, bits decifrados em mensagens e o fato estava bem diante de mim, mais terrível do que eu podia acreditar. Em um segundo, eu fui transportada por milhares de quilômetros. Para onde? Eu não saberia dizer naquele instante, porque o avião da Chapecoense havia desaparecido e ninguém saberia dizer – por pouco tempo – onde era esse lugar para onde tantos corações, como o meu, foram instantaneamente levados.

Eu não sou catarinense, sequer sou do Sul. Nem de perto, na verdade, sendo nascida e criada no Nordeste. Um dos principais rivais do meu time veste um manto verde e, em geral, eu não sinto muita simpatia pela cor. A rivalidade saudável falando mais alto diante de alguns gostos que eu sempre considerei irrisórios.

Mas a Chapecoense… Eu e muita gente vínhamos acompanhando a campanha do time no Brasileirão e, especialmente, na Copa Sul-Americana. Havia uma simpatia em torno do time que ganhou o carinho de brasileiros por diversas partes do país. Mais que de Santa Catarina, o time virou uma espécie de “xodó”, com representantes em cada região do Brasil. E ainda que um dos rivais do São Paulo Futebol Clube fosse alviverde, eu não teria problemas em dizer que estava torcendo forte pela Chape naquela final histórica que estava para acontecer.

Eu vinha falando sobre aquela partida há dias. Apaixonada por futebol como sempre fui, aquele era um acontecimento difícil de ignorar. O ano de 2016 vinha sendo um ano e tanto para a Chapecoense e, em minha mente, eu não tinha dúvidas de que o time brasileiro venceria o campeonato.

Não passou pela minha cabeça que, no meio do caminho, haveria uma tragédia. Mas também, por que deveria passar?

Antes das sete da manhã, as notícias eram muito vagas e desencontradas. Mas entre a hora que eu acordei e a hora em que alguém compartilhou comigo a verdade que ninguém queria admitir, o tempo parece apenas um borrão. Dois anos depois, o que sobrevive é aquele momento, aquela palavra. Com “caiu” e “avião” na mesma frase, o mundo parou de girar por um segundo, o coração parou de bater por um instante.

E então havia a dor.

Confusão? Sim. Perguntas? Inúmeras. Apatia? Eventualmente. Mas entre cada sentimento que sentou, cada um à sua vez, havia uma dor indescritível e incomparável. Dor de ver um sonho tão bonito chegando ao fim, dor de pensar nos familiares, na cidade, nos amigos. Dor de imaginar a própria dor em si. Alguém me diria, ao longo daquele dia cinzento, que toda aquela história parecia roteiro de filme. Mas na minha cabeça, nem a ficção poderia ser tão cruel.

Uma vez confirmada a tragédia, as informações começaram a jorrar. E elas vinham sem medo de causar as únicas coisas que conseguiriam causar: angústia, lágrimas, medo, horror. O número de mortos, o estado dos sobreviventes, as notícias chegando à família, as reações dos conterrâneos…

Se aquilo tudo fosse um filme, teria acabado mais rápido. Mas arrastada como só a realidade pode ser, aquela semana foi uma sucessão de choros, pesadelos e infindável não entender. As incógnitas da vida dançavam sobre minha cabeça, tripudiando de mim, zombando de como eu me sentia.

E não importava quantas vezes eu perguntasse. Por quê? Como assim? Mas…? É possível? Não importava também o que eu perguntasse. As respostas que viriam, com muito tempo e paciência, jamais poderiam responder completamente os questionamentos que nasceram da tragédia, como a grama nasce do chão molhado. Sem ninguém pedir, apenas abrindo espaço no solo conforme as condições são dadas.

Mas antes de haver a semana, os meses e os dois anos, havia aquele dia. Diz claro que culminaria em um final de semana cinzento em Chapecó. Era o mesmo céu, mas Santa Catarina sentia mais, devia sentir, só podia sentir.

De tudo que veio depois, aquela manhã foi o início. E por mais longo que seja o período que dura desde que ela acabou, a marca permanece como tatuagem. Mais dolorosa, menos visível. Com tantas explicações que já foram dadas e todas as informações que já foram acrescentadas, com o tempo que já passou e as águas que já rolaram ou continuam a rolar em um momento simultâneo onde ainda estamos em 28 de novembro de 2016, o inesquecível é uma mistura de capacidade com convicção.

Não esquecemos porque não deveríamos mesmo esquecer. Não esquecemos porque seria impossível esquecer. Dos jogadores, jornalistas, dos que ficaram e dos que se foram, dos que ficaram sendo dos que se foram, dos que ficaram para sempre por terem ido.

Muita história para três páginas, muita história para 730. Ainda assim, aqui estamos, setecentos e trinta páginas depois. Entre fatos e incertezas, restam as perguntas, mantendo boa parte do que é e do que nunca se poderá saber no escuro. Como uma noite que nunca acabou.