Carta aberta: de uma São Paulina ao técnico do Fortaleza

Por: Maggie Paiva

Prezado Rogério Ceni,

Eu não sou torcedora do Fortaleza. De fato, eu preciso confessar, o time pelo qual tenho mais simpatia no meu próprio estado é o Ceará, o Alvinegro Vôzão. Mas veja só que coincidência: por mais que eu não seja Tricolor por aqui, é um Tricolor que move, de fato, as batidas aceleradas do meu coração quando o assunto é futebol, especialmente nas tardes de domingo e noites de quarta.

Pode ser – embora eu ache muito pouco provável – que muitos torcedores tenham conhecido seu nome quando você assumiu o comando do Fortaleza, mas o meu amor – não romântico, mas o que uma fã dedica a seu ídolo – vem de outros tempos, outros campos.

Veja bem, Professor Ceni, eu sou São Paulina. Roxa. Doente. Alucinada. Vermelha, preta e branca de coração. E bem, no espírito de honestidade que tem guiado esta carta, é preciso que eu confesse: boa parte da culpa é sua. O meu amor pelo São Paulo se mistura ao que eu sinto por Rogério Ceni, a quem eu me acostumei a ver como goleiro, líder, mito. Dizer que eu admiro sua trajetória no time do Morumbi seria um eufemismo, mas permita-me tentar: eu admiro, valorizo e tenho uma grande paixão pelo trabalho incrível e inigualável que você desempenhou por lá.

A alegria de te ver marcar gol era maior do que a de ver o time ganhar. E suas defesas milagrosas, que felizmente não foram poucas, era tão emocionante quanto a conquista de um campeonato. Ceni, eu amo o time pelo qual sou apaixonada, eu realmente amo, mas como eu me sinto a respeito do futebol se deve, pelo menos a metade, a você e ao que eu vi você fazer.

E, com todo respeito às outras posições e suas devidas importâncias, não há nenhuma que eu admire mais do que a de goleiro. Por motivos óbvios. Mas tudo bem, agora que eu já coloquei essas verdades incontestáveis a respeito de eu mesma para fora, preciso confessar que essa carta não é sobre o São Paulo ou sobre seu antigo camisa 01. Eu posso ter passado essa ideia, mas como o título que eu escolhi já diz, essa carta é para o técnico do Fortaleza.

Foto: Uol

No entanto, que o técnico do Fortaleza foi o goleiro do São Paulo é um detalhe ao qual, inevitavelmente, eu preciso recorrer.

Ceni, se o tempo estiver permitindo e você estiver ainda com alguma vontade de acompanhar o São Paulo, você deve saber que as coisas não andam boas para esse tricolor.

Há poucas semanas ou meses, parecia que 2018 tinha tudo para acabar como nosso ano, uma explosão de intensa alegria, a ansiedade por uma emoção que há tempos não se sentia era quase palpável. Mas entre jogadores machucados, peças insubstituíveis e um je ne sais quoi inexplicável, as coisas desandaram. O final da história, que está em vias de ser escrito, não é muito bom quando comparado àquele com o qual a torcida já vinha sonhando. Nem de longe.

O seu Tricolor, por outro lado, viveu um ano que só pode ser descrito como histórico. Eu sei, eu venho escrevendo matérias sobre a trajetória do Fortaleza há quase um mês. E como o meu tempo me permite, eu venho acompanhando o seu time. Mesmo sem torcer, só por causa de você.

Ceni, quando a hora de se aposentar como goleiro não podia ser mais adiada e você teve que deixar o São Paulo, eu tive dois medos muito específicos: do que ia acontecer com meu time do coração e de como meu coração iria se portar dali em diante com relação a você.

Nessa carta, não pretendo dissertar sobre o primeiro medo (embora já tenha pincelado a respeito), mas sobre o segundo eu posso afirmar: era tão infundado quanto desnecessário. E eu só gostaria de saber disso na hora em que o alimentei e dei-lhe uma cama em minha mente.

Agora eu já sei que a admiração que eu sinto pelo seu trabalho, pelo seu profissionalismo, por sua liderança e talento vão muito além de sua posição, de seu time ou de você estar dentro ou fora das linhas, debaixo ou atrás da trave.

Porque quando o jogo contra o Avaí foi encerrado e o Fortaleza era, enfim, campeão da Série B do Campeonato Brasileiro, eu senti uma emoção tão real e tão similar àquela que eu senti quando você levantou as taças em 2006, 2007 e 2008 que parecia que o Fortaleza era realmente o meu time. Mas não, a verdade era que o técnico deles era – e é – meu ídolo.

Por mais que eu conhecia e conviva com torcedores do Leão, eu não consigo imaginar qual foi a real e mais pura emoção do último sábado, ainda mais com a bagagem que o Fortaleza vem trazendo dos intermináveis anos na Série C, mas eu fiquei tão verdadeiramente feliz por você, como técnico, como Ceni. Não havia nada de irreal na emoção que eu senti.

Rogério, a mesma mídia e pessoas que falavam que você tinha ideias irreais para o futebol brasileiro, que você era muito novato, que questionou a contratação do Fortaleza… Todos eles aplaudem agora o trabalho que você desempenhou ao longo desse ano. Eu também aplaudo, mas com a consciência de que eu nunca duvidei, sempre acreditei e continuarei acreditando. Se não pela lógica de todo o trabalho que você demonstrou, pelo menos pela admiração de fã que eu vou sentir eternamente.

Professor, eu não sou torcedora do Fortaleza, mas eu acho que esse título e esse acesso me deixaram tão feliz quanto qualquer um dos torcedores do Leão. Por você. Porque você merece. Porque você teve seu trabalho injustamente criticado por um presidente desonesto – cujo nome é melhor nem citar –, porque você foi questionado antes mesmo de poder mostrar a que veio.

Aquele sorriso do final do jogo, eu não posso imaginar quanto ele carregou do seu sentimento, da sua própria emoção e sensação de dever cumprido, mas de uma coisa eu sei: você merece. Você. Merece. Se tem alguém que merece, esse alguém é você. Aproveita, Ceni. Sorri mesmo. Sorri esse sorriso de campeão que você se acostumou tanto a sorrir, levanta essa taça do jeito que você sabe fazer. Isso ninguém tira mais de você.

Foto: Youtube

No mais, momentos como o desse sábado me lembram o quanto eu tenho saudades de você no gol do meu time, ou simplesmente no meu time, mas eu não posso ser egoísta de querer te amar sozinha e não deixar que tantos outros torcedores conheçam a admiração que você inspira, certo? E de mim, isso ninguém mais tira.