Foste herói em cada jogo, Botafogo

Por: Vittoria Catarina

Raquel Guimarães, de 24 anos, poderia ser só mais uma jovem apaixonada pelo seu clube, mas não é. Para ela, o Fogão é mais do que isso. É o responsável pela sua força e pela sua recuperação. “O Botafogo me devolveu a vontade de viver. O meu esforço todo, as dores que aguento na fisioterapia, é para ficar boa e voltar logo aos jogos”, conclui a torcedora no final da entrevista.

Ainda que não esperasse que a oportunidade aparecesse tão cedo, principalmente após o último procedimento cirúrgico, Raquel foi surpreendida por uma das suas redes sociais. Ela estará presente na partida entre Botafogo e Corinthians, neste domingo (4), no Estádio Nilton Santos, às 17h. Encontro marcado, não somente com o seu clube do coração, mas com Felipe Neto, um dos youtubers mais conhecidos da atualidade.

A torcedora do Botafogo já conhecia o trabalho do jovem, através dos filhos de suas amigas que adoram os vídeos que ele produz. Ainda assim, por conta da fisioterapia e das suas palestras, pouco tempo tinha para acompanhar o canal. Como se aproximaram? Mais do que pelo clube, através do Twitter. Na postagem, Raquel desabafava a vontade de que o Botafogo disponibilizasse uma maca para que pudesse assistir a partida ao vivo.

Mais do que isso, conta que discutiu com seu médico para ir ao jogo, mas foi orientada de que sentiria muitas dores com a cadeira de rodas. Sua amiga comentou que sua postagem iria viralizar, mas a botafoguense não acreditava nessa possibilidade. Aliás, era pouco conhecida na rede social e não entendia muito sobre a sua funcionalidade. Foi surpreendida ao ver que as pessoas passaram a retweetar a sua publicação.

Além disso, muitos marcavam o perfil oficial do clube, assim como o de Felipe Neto, também torcedor do Botafogo. Até que, de repente, recebeu um direct do youtuber. Ele pedia o seu número de telefone, já que a sua equipe entraria em contato com ela. Respondendo ao seu tweet, prometeu que iria resolver a situação para Raquel. A maca seria providenciada e o deslocamento também, a torcedora ficaria em seu camarote.

Raquel viu a mensagem direta antes da resposta na publicação, leu e ficou muito surpresa. “Eu demorei até um tempo para respondê-lo, porque eu não sabia o que falar”, explica sua reação. Entrou em contato com a sua equipe, dizendo que poderia ir de carro e utilizar a maca somente no local. Ainda assim, foi surpreendida com a atenção deles, que disseram fazer questão de disponibilizar uma ambulância para o deslocamento.

“O Botafogo só tem duas opções: Ganhar ou ganhar! Eu estou confiante, mas com uma pontinha de medo. Arrisco um 2×1! Eu não sei como vai ser até chegar lá, se sentirei dor ou algo do tipo. Assim que a torcida começar a cantar, esquecerei os meus problemas e focarei em uma só coisa: apoiar o meu time!”, conta Raquel de forma divertida e empolgada. Ainda que seja uma nova partida, a história entre ela e o Botafogo não é de hoje.

Foto: Arquivo Pessoal/Raquel Guimarães

CIRURGIA BARIÁTRICA
Raquel sempre acompanhou as partidas do seu time do coração, a maioria delas dentro do estádio. E, assim como todos os torcedores, tinha sua vida pessoal fora dos grandes palcos de futebol. Entre suas dificuldades, a jovem não gostava do seu corpo, principalmente pelo excesso de peso. Por esse motivo, ouvia muitas “brincadeiras”, que já quando estava sozinha resultavam em choro.

Tentando melhorar o seu físico, a torcedora fez dietas inimagináveis, como ficar três dias sem comer – o que causava desmaios. Uma de suas amigas fez a cirurgia bariátrica, Raquel gostou do resultado e resolveu tentar. O médico escolhido foi o de uma conhecida. Ainda que o plano de saúde não cobrisse os custos, seus pais trabalharam para pagar a cirurgia. Aliás, era um dos grandes sonhos da garota de 20 anos.

No dia 2 de setembro o procedimento cirúrgico foi realizado, os médicos autorizaram por conta da obesidade e dos exames realizados. Tudo ocorreu bem a princípio, o primeiro mês foi de grandes mudanças no seu cotidiano, principalmente em sua rotina de alimentação e quantidade de líquido, aliás precisava de muitas vitaminas para ficar bem. “Eu estava vendo resultado… E estava cada vez mais feliz”, relembra Raquel.

O médico que a operou só passou uma marca de multivitaminas, que na opinião da paciente era pouco. Ainda que tivesse questionado o profissional sobre a limitação do medicamento, foi orientada de que era o bastante. Por esse motivo, ela e os seus pais passaram a acreditar que realmente era. Aliás, ele era o médico. O que eles não esperavam era que Raquel passaria a ter fortes cãibras nas pernas e uma futura perda de memória.

Foto: Arquivo Pessoal/Raquel Guimarães

HOSPITAL, CTI E BOTAFOGO
Em um desses dias de mal estar, a torcedora do Botafogo foi se levantar e caiu. Ela relata que não se lembra de muita coisa, mas sabe que foi levada ao hospital imediatamente. Pela complicação, foi internada por duas semanas até receber alta. Já em casa, não conseguia se alimentar direito e nem beber líquidos. A situação se agravou e voltaram a buscar o hospital, em todas as vezes disseram que não tinha nada haver com a cirurgia realizada.

A situação se agravou e a torcedora ficou internada no Centro de Tratamento e Terapia Intensiva (CTI), lá teve muitas convulsões e ficou sedada. No final das contas, pela falta de vitaminas e pela sedação, perdeu a sua memória. “A situação dela não é boa, ela não vai suportar”, Raquel conta que ouvia muito isso dos médicos e da maioria dos enfermeiros, todos já estavam desacreditados da sua recuperação.

Durante o tempo que permaneceu no CTI, suas pernas foram deixadas em uma só posição. Por esse motivo, depois de um mês, elas atrofiaram. Seu cabelo caiu quase todo, ela passou a pesar no máximo 40kg. Em seguida, teve água no pulmão que foi tirada com dreno. Os médicos tentaram duas anestesias antes do procedimento, mas nenhuma delas funcionaram. “Eu senti tudo. Me cortando, colocando o dreno. Foi uma das dores mais fortes que já senti na vida. Cheguei a desmaiar de dor!”, relata Raquel.

Ainda no CTI, seu pai perguntou quem ele era, mas a jovem não se lembrava. Como uma das últimas alternativas, lhe mostrou o escudo do seu time. E, por mais surreal que pareça, ela se lembrou dizendo: “É o Botafogo”. Imediatamente o pai chamou os médicos que passaram a ter um pouco de esperança na sua recuperação de memória, por mais impossível que soasse. Só que como se essa frase nunca fizesse tanto sentido, não era só futebol.

Foto: Arquivo Pessoal/Raquel Guimarães

A RECUPERAÇÃO

Foto: Arquivo Pessoal/Raquel Guimarães

“No começo foi muito difícil. Eu não queria viver, sabe? Sentia muitas dores, a fase da fisioterapia em casa foi muito complicada. Eu não queria, mas eu não poderia deixar de lutar por mim!”, relembra Raquel. Conta ainda que encontrou uma boa fisioterapeuta, que aumentou sua força de vontade para seguir no tratamento. A torcedora amadureceu, passou a dar valor nas coisas pequenas da vida, como se alimentar, andar, respirar.

A botafoguense relata ainda que encontrou ortopedistas incríveis, que lhe deram um choque de realidade. Aliás, nunca havia aparecido um caso como o dela. Sua cirurgia foi transmitida ao vivo para os médicos estudarem hoje e futuramente. “Me deram um ânimo a mais, com eles eu realmente sabia que ia tudo voltar ao normal, mas eu precisava fazer a minha parte também”, explica Raquel ao falar sobre o Dr. Flávio e sua equipe (SEFIX).

Raquel realizou uma cirurgia na perna direita no ano passado, parte da recuperação do movimento das pernas, que vem funcionando bem. Recentemente, realizou na perna esquerda. Por esse motivo, foi orientada a não ir de cadeira de rodas ao estádio. “Mesmo assim (após todas as complicações e o processo de recuperação), hoje eu sou mais independente”, analisa a torcedora.

A jovem cursava fisioterapia antes da cirurgia, e confessa que hoje está entre ela e a graduação de ortopedia, resultado dos ótimos profissionais que cuidaram dela. “Creio que em qualquer uma das duas que seguir, serei uma boa profissional, porque sei bem de ambos os assuntos. Metade foi praticamente tudo no meu corpo, na prática”, analisa a futura médica.

Foto: Arquivo Pessoal/Raquel Guimarães

O BOTAFOGO
Logo depois das complicações, sua história foi contada na página Manual do Jogador Ruim. Nessa publicação foram marcadas muitas pessoas do Botafogo, então a diretoria a convidou para conhecer os jogadores em um treino. Antes disso, tinha ido em um jogo em Bangu, bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Lá, conseguiu uma foto com o Sassá. E, assim que recebeu o novo convite, fez questão de avisar ele e Bruno Silva via direct.

Raquel descreveu o primeiro encontro como surreal, já que conversou com alguns jogadores e assistiu o treino inteiro. Relata ainda que os dois jogadores, já citados acima, foram os que mais ficaram com ela. Relembra o descontento da torcida com eles, mas diz jamais poder esquecer do apoio que recebeu deles. Em que, nesse momento, se trata sim de “apenas” futebol. Aliás, ainda que aqui a história se misture, a vida é muito mais do que isso.

Ao final do treino, Sassá pediu para que Raquel esperasse ele tomar banho. Quando voltou, veio com uma camisa autografada por todos os jogadores ali presentes. “Ali só me deu mais forças para não desistir, imagina? Um time que eu amo, com os jogadores me dando uma força imensa, eu não poderia desistir”, conclui a torcedora. Não mesmo, Raquel. Ainda que o placar fosse o mais desanimador possível, só pode ser herói aquele que nunca desiste.

“Foste herói em cada jogo, Botafogo, por isso é que tu és e hás de ser nosso imenso prazer. Tradições aos milhões tens também, tu és o glorioso”.