Mulheres em campo: quando jogar futebol vira um risco de vida

O ano era 2004. O Afeganistão tinha acabado de se libertar do regime brutal de Talibã, que foi marcado por conflitos, medo, falta de liberdade para viver a própria vida e poder realizar escolhas. A sociedade ainda era influenciada pela cultura dos Talibãs, que impedia muitos dos direitos dos cidadãos, inclusive com a prática esportiva das mulheres, que era considerada inaceitável.

Alguns anos antes, em 1987, nascia Khalida Popal. Sua mãe era professora de educação física, e a educou ensinando a jogar futebol e abrindo novas oportunidades para outras meninas.

Aos 16 anos, Khalida, por conta da proibição da prática de mulheres nos esportes, jogava futebol com suas amigas em um pátio isolado da escola, fortalecendo o crescimento do número de jogadas e transferindo, mais tarde, a área do jogo para campos públicos. Entretanto, ela estava altamente vulnerável à discriminação e opressão à medida que a guerra no Oriente Médio continuava, e os Talibãs começaram a ocupar áreas ao redor de Cabul.

Popal não aceitava a situação de ser proibida de jogar futebol e ser tratada diferente apenas pelo gênero, e buscou, ainda aos 16 anos, envolver-se na luta pela igualdade, não importando muito com as consequências.

“As mulheres são as primeiras vítimas da guerra. A falta de ensino, educação e aprendizagem cria uma sociedade que se volta contra as mulheres. Toda vez que um país é ocupado, são os direitos de mulheres e crianças que são restritos”, diz Khalida.

E foi com a determinação de Khalida, e também de suas colegas, que deu-se o pontapé inicial para a formação da Seleção Afegã de futebol feminino em 2007. Esta equipe foi formada com o objetivo de inspirar as próximas gerações, e no primeiro jogo, saíram de campo mais encorajadas, vencendo por 5 a 0 uma equipe formada pela Força Internacional de Assistência à Segurança.

Mais tarde, em 2011, ela teve que fugir do Afeganistão, por sofrer inúmeras ameaças de morte, deixando para trás suas companheiras de equipe e seus amigos. Foi de Cabul para a Índia, de lá para a Noruega por conta da falta de visto e, posteriormente, desembarcou na Dinamarca, onde viveu em um campo de refugiados por quase um ano. Por lá, ela procurou jogar em um time local, mas sofreu uma grave lesão no joelho que a impediu de continuar jogando futebol.

“Cabe ao indivíduo determinar os riscos que valem a pena. Para mim, valeu a pena arriscar minha vida na luta para fazer a diferença para tantos outros. Minha luta não é só comigo. É sobre todas as mulheres, sobre as futuras gerações. Dado o quanto está em jogo, estou disposta a fazer qualquer coisa. É uma luta que eu estou mais do que disposta a me envolver, e ninguém vai me impedir”, Khalida insiste.

Hoje, 11 anos depois do Afeganistão ter conquistado a primeira equipe nacional de futebol feminino, o apoio aumentou e tornou-se legal incentivar abertamente os jogos femininos e masculinos, ainda que as mulheres enfrentam mais resistência.

Khalida, que havia saído do país por conta das ameaças, hoje vive na Dinamarca com sua família e não viu seu país desde que fugiu, há sete anos. Ela ainda continua na busca pela igualdade e pelo direito das mulheres, desenvolvendo atividades através da organização intitulada Girl Power, que se concentra fortemente na autoestima e confiança de mulheres, imigrantes e membros da comunidade LGBT através do esporte em comunidades minoritárias.

Popal também é embaixadora da Street Child World Cup, que organiza eventos esportivos para crianças pobres e que vivem nas ruas, oferecendo áreas de segurança e capacitação para cada uma.

A afegã ainda encontrou um trabalho na Dinamarca, em uma empresa de vestuário esportivo, e criou uniformes para sua equipe que cobria as mulheres da cabeça aos pés, de acordo com as normas culturais. Nesta empresa, ela buscou promover uma mudança na mentalidade em torno do esporte e das mulheres, que conflita com quem é contra a qualquer cultura e religião.

Pela sua luta e exemplo como ser humano, Khalida foi reconhecida, em 2017, pela Hisworld e pela Theirworld, por protestar e desafiar os preconceitos e ideologias que negam às mulheres e meninas a igualdade de oportunidades. Além disso, ela recebeu também o Prêmio Paz e Esporte no mesmo ano, por fortalecer e promover os direitos das mulheres no Afeganistão.

Que a luta dela seja refletida pelo mundo, e que o futebol feminino passe a ganhar cada vez mais visibilidade.

Foto: Soccer Without Borders