O primeiro raio a gente nunca esquece

Vou começar contando uma história para vocês: o primeiro jogo de futebol que eu assisti, fora as Copas do Mundo, de um time brasileiro foi do Santos. Mas aquele time que eu vi jogar, no início de 2010, não precisava só fazer dancinha para comemorar os gols. Não precisava ter Neymar, Ganso, Robinho e André – o quarteto Santástico – para que eu pudesse ficar vidrada em frente a TV. Era preciso eu entender que aqueles Meninos da Vila estavam fazendo as suas histórias, como vários outros fizeram e deixaram marcas no gramado da Vila Belmiro.

E por falar em história, nada melhor do que explicar a história dos raios na Vila Belmiro. Fisicamente, é comprovado que um raio pode sim cair mais de uma vez no mesmo lugar, e nas terras santistas, ele caiu. O primeiro comentário que eu escutei sobre isso, os jornalistas e comentaristas falavam em um terceiro raio. “Então quem seria o primeiro?”, questionei. O primeiro raio a cair no gramado alvinegro praiano mudaria todo o trajeto da história daquele time: o Santos passaria a ter na geração do primeiro raio: 22 títulos ganhos (12 paulistas, seis Taças Brasil, duas Copas Libertadores e dois Mundiais).

Essa é a primeira memória que tenho sobre o time alvinegro, e apostem, de memória o torcedor santista entende. Falar desse time não é somente lembrar dos jogadores mais recentes ou dos campeões brasileiros em 2002 e 2004, Diego e Robinho. Antes mesmo, bem antes de todos eles nascerem, um jogador em especial vestiu a camisa alvinegra: Edson Arantes do Nascimento, o Rei Pelé.

Como muitos, o mineiro de Três Corações viu o pai jogar e queria seguir seus passos. Pelé tinha quatro anos quando se mudou com a família para São Paulo e passou a olhar o pai, ex jogador Dondinho, atuar pelo Clube Atlético de Bauru. Aos 11 anos, o ex jogador Waldemar de Brito o revelou e Pelé passaria a atuar na equipe do Clube Atlético de Bauru.

Sua carreira profissional começaria com uma profecia: Waldemar de Brito avisou, assim que o mineiro chegou ao Santos em agosto de 1956, com 16 anos, que ele seria “o melhor jogador de futebol do mundo”. E assim se inicia a história de mais um raio do Santos.

Fonte: Santos FC

Cumprindo a promessa

Pelé havia prometido ao pai que seria campeão mundial com a camisa amarelinha. A oportunidade de chegar à Seleção veio um ano depois da sua estreia como profissional, quando convocado para os dois jogos da Copa Roca. Assim como seu primeiro jogo pelo Santos, Pelé entrou no lugar de Del Vecchio e marcou seu primeiro gol. No segundo jogo, o atacante tornou a marcar e com a soma de placares – de três a dois para os canarinhos – o Brasil foi campeão naquele ano.

Apesar de não ser televisionada, muitos sabem que sua promessa foi cumprida em 1958, quando a Seleção Brasileira foi campeã pela primeira vez. Pelé se tornava o jogador mais novo a ser campeão do mundo.

Saída antecipada do Mundial de 1962

Quando ouvi que o Neymar estava fora da Copa de 2014, uma das frases que o Galvão Bueno mais falou foi sobre a saída do Pelé na Copa do Chile de 62. Na ocasião, o Brasil jogava contra a Tchecoslováquia, quando Pelé sofreu um estiramento e precisou deixar a competição mais cedo. Amarildo cumpriu o lugar do camisa 10, Mané brilhou e mais uma vez o Brasil seria campeão mundial.

Gol número 1000

Uma das maiores histórias que um santista pode contar é sobre o jogo contra o Vasco da Gama, em 1969. Nunca era um jogo normal quando ele entrava em campo, nem a ele e nem ao time. Dessa vez, foi muito mais que anormal. Quem esteve naquela noite de quarta-feira no Maracanã, sabe a expectativa que existia pelo milésimo gol do Rei. Ele mesmo conta que tremia e que nunca havia sentido uma responsabilidade tão grande.

Copa de 70

Para Pelé, foi a melhor parte da sua carreira. Levar o Brasil ao terceiro campeonato e participando de todas as partidas, principalmente depois da derrota no mundial de 66, fez o jogador encerrar suas participações em realizado.

Fonte: Lance!

Despedidas

Nunca um jogador está preparado para se despedir dos gramados. Esses é um dos assuntos que eles mais fogem em coletivas, se pudessem, parariam o tempo para sempre continuar jogando. Com Pelé não foi diferente.

Em julho de 71, ao som de “fica, Pelé” da torcida brasileira, o atacante se despedia da Seleção. O palco? Maracanã, com quase 140 mil pessoas. O jogo? Um amistoso contra a Iugoslávia. No mesmo lugar que jogou pela Seleção Brasileira pela primeira, que fez seu milésimo gol, deu adeus à amarelinha.

Fonte: Efemerides do Éfemello

Em outubro de 74, perto de completar 34 anos, deu adeus ao clube que o consagrou. Era chegada a hora de dar adeus ao Santos. De joelhos, no meio do gramado da Vila Belmiro, de braços abertos e com a bola parada à frente dele, Pelé pede perdão. Descer as escadas de acesso ao vestiário deve ter sido uma das partes mais difíceis.

Não o vi jogar como gostaria de ter visto. Mas, ainda bem que temos memórias, fotografias e gravações de várias cenas sobre esse jogador, que mesmo nunca tendo participado de uma Olimpíada, foi eleito Atleta do Século pelo COI (Comitê Olímpico Internacional). E que também tem como título, Sir-Cavaleiro Honorário do Império Britânico. É como dizem: um Rei nunca perde sua Majestade. Então, como dizem pelo Santos, e eu não poderia terminar esse texto sem usar essa frase: vida longa ao Rei!