História pra contar: milagre nos Andes

Por: Maggie Paiva

46. 13. 45. 571. 12. 29. 16. 23. 72. 10.

Sozinhos, uma sequência de números completamente aleatórias. No decorrer do texto adiante, alguns dos protagonistas de uma história tão real quanto inacreditável, que marcou a história do rugby e a vida de 45 passageiros, sobreviventes e memórias de uma tragédia que, nesta semana, completou 46anos.

Sexta 13

Era uma tarde de sexta-feira13 quando um grupo de 45 passageiros – que incluíam um jovem time de rugby, familiares, amigos e tripulação –, a bordo do Voo 571, da Força Aérea Uruguaia, seguia no que deveria ser a última parte de um trajeto até Santiago, no Chile.

O avião passava pela paisagem tão fascinante quanto assustadora das imensas e brancas montanhas da Cordilheira dos Andes quando a viagem descontraída do grupo argentino virou tragédia: 12 pessoas morreram no momento – ou logo após – a queda da aeronave pela costa de uma das gigantes da cadeia montanhosa, descansando em um banco de neve, um ponto branco em meio a uma imensidão da mesma cor, que virou o cemitério do avião e de 29 pessoas.

Mas era apenas o começo insano de um acontecimento que se estenderia pelos dias como os cumes de montanhas no horizonte. E o destino rápido das primeiras vítimas pareceria quase uma benção diante do inferno que os sobreviventes tiveram que enfrentar.

Foto dos passageiros no interior do avião, antes da queda. Posando à direita, Gustavo Nicolich, uma das vítimas da avalanche que atingiu a fuselagem pouco mais de duas semanas após o acidente; posando à esquerda, Roy Harley, um dos sobreviventes que foram resgatados. (Imagem: viven.com.uy)

Old Christians

O voo fretado levava a jovem equipe do Old Christians – além do restante dos passageiros e da tripulação – para uma partida amistosa no Chile, quando a trajetória foi brutalmente interrompida na Cordilheira dos Andes, na fronteira montanhosa entre Chile e Argentina.

O impacto do encontro arrancou, uma a uma, as duas asas do avião, deixando a fuselagem da aeronave em queda livre por um “tobogã” de neve e gelo. Mas antes mesmo da descida final, a hélice já havia criado um buraco no metal, dividindo o avião e “sugando” algumas das vítimas que se perderam na neve antes mesmo da oportunidade de saber o que estava acontecendo.

Cerca de 1 semana foi o tempo que levou para que as equipes de busca desistissem da procura por sobreviventes, tamanha era a impossibilidade de sobreviver no tempo cruel, de baixíssimas temperaturas, do local da queda, mesmo considerando que alguém tivesse sobrevivido ao acidente.

Mas o último dos 16 sobreviventes só foi resgatado em 23 de dezembro daquele ano de 1972, pouco antes do Natal, exatos 72 dias após o início do inferno no qual eles se encontraram presos, lutando para sobreviver, se despedindo de companheiros de time, amigos queridos, a beira de cruzar os limites da sanidade, esperando um milagre que parecia impossível de chegar.

Vivos

Mas chegou.

De uma avalanche – que encerrou a vida de parte dos sobreviventes da queda – a sede e fome, as adversidades enfrentadas pelos rapazes, em sua maioria, são quase incontáveis. Quem já está familiarizado com a história sabe que eles tiveram, por exemplo, que recorrer ao antropofagismo – comendo pedaços dos corpos – na tentativa de sobreviver.

Mas nem só de ressignificação de limites morais e éticos, a sobrevivência se construiu. A inteligência de cérebros frescos e jovens levou o grupo a aprender maneiras alternativas de produzir água potável, fazer óculos de proteção com o material do qual dispunham e sobreviver ao frio, noite a noite, tenso a fuselagem morta e os assentos do avião à disposição.

A disciplina proveniente do esporte e a união do grupo como uma equipe foi mais que fundamental para que pelo menos 16 deles permanecessem com vida naquelas condições extremas, assistindo enquanto companheiros morriam de frio e, no caso de Nando Parrado, se despedindo da própria mãe e irmã.

A força dos jovens atletas também foi fundamental – aliás, essencial – para o fim do suplício que parecia eterno. Nando Parrado (o mesmo que perdeu mãe e irmã) e Roberto Canessa foram os desbravadores que, por 10 dias, caminharam cheios de incerteza, mas muita vontade, até chegar ao Chile e encontrar o vaqueiro Sergio Catalán: enfim a certeza e o alívio de que sairiam vivos dali.

Da esquerda para a direita: Nando Parrado, Sergio Catalán e Roberto Canessa à época do resgate. (Imagem: culturademontania.com.br)

Valores

Difícil falar dessa história e não fazer a ponte com outras tragédias mais conhecidas envolvendo aviões e esportes, como a da Chapecoense e do time de futebol americano da Universidade Marshall, nos EUA – sobre os quais você pode ler mais aqui.

Histórias diferentes, com diferentes contextos, em diferentes épocas, mas que em meio a dor, ao choro e ao luto acabam conseguindo mostrar uma coisa em comum: o esporte, seja ele qual for, jamais será apenas um esporte. Nunca será só rugby. Só futebol. Só o futebol americano. “Só”, não.

Força, disciplina, esperança, união. Exemplos de valores que mostram as caras quando guerreiros precisam achar bravura também fora de campo.

Quando a situação exige, a verdade é que a coragem já está lá dentro – presente do esporte, e de tudo que envolve, que jamais serão 11 (ou outra quantidade) de homens e mulheres correndo atrás de uma bola, seja qual for o formato dela.

Lugar demarcado com uma cruz onde, posteriormente, uma expedição sepultou os corpos das vítimas, a poucas milhas do local do acidente, fora do alcance de avalanches. Os restos da fuselagem foram queimados para evitar a presença de curiosos. (Imagem: Wikipedia)

Em tempo

A história do grupo uruguaio vale a leitura aprofundada e é digna de filme. Cheio de lições que podem ser aplicadas na vida de qualquer pessoa, o “Milagre dos Andes”, como a história ficou conhecida, virou roteiro de filme (Vivos, 1993), que retrata a permanência dos sobreviventes nas montanhas, da queda ao resgate.

O acontecimento também virou tema de livros, dentre os quais é possível destacar “Milagre nos Andes” – do sobrevivente Nando Parrado – que traz um relato envolvente, chocante e emocionante sobre as perdas, dificuldades, dilemas e batalhas enfrentadas nos 72 dias perdidos na neve.