Brasil x Argentina: muito mais que um amistoso

Chamado de superclássico para muitos especialistas, Brasil e Argentina reunirá mais uma história para contar, hoje, na cidade de Jidá, na Arábia Saudita. E não poderia ser mais especial para ambas as equipes, um novo palco celebrando 100 partidas de confronto.

A rivalidade que vemos entre os dois países talvez não esteja somente ligada ao meio futebolístico. Para os historiadores, o argentino Fernando Devoto e o brasileiro Boris Fausto, essa rixa nasceu através da criação do Mercosul. Eles explicam, em seu livro “Brasil e Argentina: Um Ensaio de História Comparada”, que no início do século XIX, os dois países eram os mais importantes dentre os membros do bloco e, por isso, essa rivalidade política pode ter ido além, alcançando a população e sendo incrementada dentro de campo. Há também a teoria de que tudo tenha surgido através da disputa entre Portugal e Espanha pelo controle do Rio da Prata, como cita o cientista político argentino Roseado Fraga. Ou seja, a disputa é vista inicialmente como rivalidade política.

No futebol, esse clássico se tornou maior ao longo dos anos, com a cultura populista do esporte entre os países, e principalmente pelos nomes dos maiores jogadores da história ao defender suas seleções. Não se pode falar de Argentina sem Messi e Maradona, assim como não se pode falar de Seleção Brasileira sem Pelé e Neymar. É claro, não exclui os grandes outros nomes da seleção canarinho e nem da seleção alviceleste, mas atualmente as comparações são baseadas a eles.

Curiosamente, Maradona e Pelé nunca se enfrentaram em campo. O argentino é vinte anos mais novo e iniciou a carreira um ano antes de Pelé largar as chuteiras, em 1976. Imagina assistir aos dois jogando no mesmo campo na Copa Roca de 1963, que Pelé fez os três dos cinco gols da vitória brasileira contra os hermanos? Ou então, as oitavas de final da Copa do Mundo de 1990, que Maradona iniciou a jogada para Caniggia fazer o único gol do jogo, eliminando o Brasil? Não tivemos essa oportunidade, mas uma – quase – releitura deles é permitida nos tempos atuais.

Talvez uma criança com os seus seis ou sete anos não saiba a importância que é, hoje, falar da rivalidade entre esses dois astros. Mas se perguntar sobre Neymar e Messi, eles saberão responder. É muito comum escutar que seus maiores ídolos são Neymar, Messi e Cristiano Ronaldo. Uns até mesmo limitam-se a distinguir cada um. A figurinha que eles mais querem para completar o álbum são deles. A camisa, os jogos, até o jeito de jogar tentam fazer igual.

Messi, para alguns, é “sobrenatural”, Neymar é um “craque brincando de jogar futebol”. A primeira vez que pudemos ver os craques jogando um contra o outro foi pelo Mundial de Clubes da FIFA, em dezembro de 2011, quando o brasileiro ainda defendia o Santos. Dois anos depois, Neymar passou a defender o Barcelona e a dupla se fez muito mais presente entre amigos do que entre rivais.

Pelas suas seleções, Messi já passou por quatro Copas do Mundo, Neymar por duas. O argentino tem o título de Copa do Mundo Sub-20 e uma medalha olímpica dos jogos de Pequim, em 2008. Já para o lado brasileiro, Neymar tem os títulos de campeão Sul-Americano Sub-20, três superclássicos das Américas, duas medalhas olímpicas (uma de prata, em Londres 2012, e o ouro olímpico, no Rio 2016) e a Copa das Confederações conquistada em 2013.

Mas, dessa vez, não veremos os craques em campo. Ao menos, a Argentina não pode contar com o camisa 10 do Barcelona. Desde o vice-campeonato, contra o Chile, na Copa América Centenário, Messi vem sendo bastante criticado pelas atuações com a sua seleção. Dois anos antes, os hermanos foram vice contra a Alemanha, na Copa do Mundo do Brasil. E um ano depois, mais uma vez contra o Chile, a Argentina ganhou um vice-campeonato em Copa América.

Foi então que a Copa do Mundo da Rússia trouxe uma realidade muito próxima para a Seleção da Argentina. Comandada por Jorge Sampaoli, o time era um dos favoritos a levar a taça, afinal, contando com alguns nomes como de Messi, Mascherano e Di Maria, uma nova geração nascia com Paulo Dybala e Giovani Lo Celso. A eliminação contra a campeã França, nas oitavas de final, trouxe a aposentadoria de alguns jogadores e a dispensa de Messi de, pelo menos, até o fim do ano da Seleção. Jorge Sampaoli saiu do comando, entrando – ainda – um técnico interino Lionel Scaloni.

Do outro lado, Tite permaneceu no comando da amarelinha, mas mesmo assim, trazendo novidades. Nos primeiros amistosos, Tite convocou treze dos vinte e três jogadores que estiveram na Copa. Dessa vez, o número permaneceu, saindo alguns e entrando outros. É uma fase de teste, como ele mesmo gosta de dizer, para a Copa América do ano que vem. Já Lionel Scaloni, nas suas primeiras convocações, utilizou Paulo Dybala como uma de suas referências.

Para o clássico de hoje, o técnico do Brasil utilizou o último treino para mistério com a escalação, enquanto o argentino Scaloni testou Correa no lugar de Dybala e Icardi como um dos atacantes. O palco do estádio King Abdullah Sports City irá receber um grande jogo, isso é certo. Para Neymar, além de ser um clássico, ambos os times irão entrar para vencer. Em concordância, o meia da Juventus afirmou ser uma bela rivalidade, já que ambas as equipes têm bons jogadores.