O rumo da política batendo um bolão nos gramados

Os tempos são outros. Sim, eles são. A globalização nos faz ter contato com pessoas do mundo todo, todos os dias e em qualquer lugar. Quem diria que em tão pouco tempo o e-mail salvaria uma vida ao invés da carta? Em questão de segundos, uma frase viraliza na internet e se espalha pelo mundo. Com o futebol e política não foi diferente. Mas será que eles realmente andam juntos?

O futebol ocorre todo o final de semana, eleição não. Um jogo dura noventa minutos com intervalo e acréscimos, horário político não. O esporte são 11 contra 11, na política são milhares sob decisão do povo. Então, onde eles se casam?

O matrimônio se torna afetivo quando, assim como o sócio do clube decide pelo próximo presidente que vai representar e gerenciar o seu clube do coração, também decide pelo presidente do seu país ou os políticos em sua esfera estadual.

Quando se entra em ano eleitoral, obras são finalizadas. Ou, ao menos, começam a serem finalizadas. Em um clube, as obras são buscas por reforços, por prêmios, melhores posições para mostrar ao público o trabalho na gestão.

Há quem diga que isso acontece só nos últimos meses, outros articulam organização, planejamento e acreditam em suas teses. Vale lembrar que, para muitos, o futebol é o pão e circo à população. Futebol e política são mais aliados do que meramente adversários.

Uma outra semelhança é a forma de fazer política. Não, não na forma de discurso, mas a forma de fazer campanhas. Um candidato concorrendo à presidência do Brasil tem seus minutos estabelecidos por lei para sua campanha. Um candidato de um clube usa – atualmente – as redes sociais para sua promoção. E é esse meio de comunicação que muitas vezes envolve os dois em um só lugar.

FALA, JOGADOR. OU MELHOR NÃO?
Raramente são vistas tantas publicações sobre política nas redes sociais quanto em meses antes das eleições. É certo que estamos falando de um povo democrático que opina, e tem esse direito, sobre o que acha certo a ele. Mas quando um jogador se pronuncia? Ou um técnico? É certo ou errado?

Lucas Moura, atacante do Tottenham, é um dos atletas de futebol que se posicionou nessas eleições, ainda que sem morar no Brasil há alguns anos. Demonstrando apoio ao candidato Jair Bolsonaro, foi muito criticado quando entrou em defesa do presidenciável nas redes sociais: “Se ele fosse racista estaria preso. Vejo você criticando gratuitamente, sem argumentos. Sou brasileiro e posso opinar sobre meu país, não acha?”

Felipe Melo, volante do Palmeiras, já havia declarado o seu voto em vídeo publicado em 2017. A polêmica veio à tona novamente, depois da partida que terminou em 1×1 contra o Bahia, no qual o jogador marcou o gol de empate e dedicou ao candidato Bolsonaro. O clube paulista publicou uma nota na segunda-feira seguinte a partida: “O posicionamento político do atleta Felipe Melo reflete, única e exclusivamente, uma manifestação particular, e não da instituição”.

Com a mesma linha política ainda aparecem: Lucão, atacante do Goiás; Jadson, meia do Corinthians; Roger, atacante do Corinthians, se mostrou favorável na época do Botafogo; Rossicley, atacante do Internacional, ainda na época de Chapecoense. O apoio também não se restringe apenas aos atletas de futebol, Wallace e Maurício Souza, jogadores da Seleção Brasileira Masculina de Vôlei, apareceram em uma foto apontando o número do candidato. José Aldo, ex-campeão do UFC, se declarou fã do Bolsonaro. Lucas Bebê, jogador de basquete na NBA, postou uma foto com o rosto estampado do presidenciável.

Mas esse cenário que envolve futebol e política vem de hoje? Não. Podemos nos recordar da Ditadura Militar no Brasil, quando não só jogadores, como Sócrates e Reinaldo, declararam posição contrária ao regime autoritário. Uma das figuras mais marcantes dessa época foi o treinador da Seleção Brasileira, João Saldanha, que foi demitido poucos meses antes do Mundial. A grande suspeita é que tal decisão tenha sido reflexo da sua posição contrária ao regime que havia se instalado, além de se recusar a convocar o atacante Dario, que teria sido solicitado pelo ditador e presidente Médici.

FALA, TORCEDOR. OU CALA-TE PARA SEMPRE?
Uma pessoa comum pode se pronunciar sobre suas opiniões, dialogar e respeitar caso haja desavença de opinião. Uma pessoa pública também. É comum ouvirmos gritos de uma torcida a outra de forma ofensiva, principalmente quando o jogador toca na bola. Gritos como esses foram totalmente repudiados por algumas torcidas organizadas a quem também repudiou ideologias e propostas de candidatos.

A primeira torcida a se manifestar contra o candidato à Presidência da República, Jair Bolsonaro, foi a Gaviões da Fiel. Em nota intitulada “Gavião não vota em Bolsonaro”, o presidente Digão relembrou a trajetória da Torcida e impôs a reflexão sobre o caso: “Vocês que apoiam um cara que vai contra todas as nossas ideias e joga no lixo o nosso passado de muitas lutas, por favor, se forem seguir apoiando esse cara, repensem sobre sua caminhada dentro da Torcida”.

Em seguida, outras torcidas manifestaram oposição as propostas do candidato por meio de manifestos, são eles: Palmeirenses contra fascismo, flamenguistas contra Bolsonaro, torcedoras e torcedores do clube do povo: nenhum voto em Bolsonaro (Internacional), democracia gremista: #EleNão #EleNunca, Torcida Jovem não vota em opressor (Santos). Em contrapartida, no clássico entre Atlético-MG e Cruzeiro, os galistas protagonizaram um canto homofóbico: “Ô, cruzeirense. Toma cuidado, o Bolsonaro vai matar veado”.

A POLARIZAÇÃO NO FUTEBOL E NA POLÍTICA
Ainda que entre as linhas, é possível perceber a polarização dentro do próprio futebol. Esse que já possui uma rivalidade entre times e torcidas, mas que agora se une em torno do mesmo objetivo. De um lado, alguns jogadores demonstram apoio ao candidato de direita, que é a linha conhecida por ser a “política para poucos”.

Do outro, torcedores organizados que ainda buscam o seu espaço dentro da sociedade, já que naturalmente são discriminados. Para esses, a defesa pela maioria, como dito pelo presidente da Gaviões: “somos uma Torcida que defende os direitos do nosso povo e não podemos deixar que o nosso maior representante seja contra nós e contra tudo aquilo que lutamos”.

Diante disso, há mais semelhança entre ambos do que imaginamos. Não na mesma proporção, pois gerenciar um clube não tem o mesmo tamanho do que governar um país, mas à medida que decidimos a quem vai a representação deles, estamos decidindo o futuro e iniciando um caminho para uma nova história – do futebol e da nossa sociedade.