Precisamos falar sobre as torcedoras organizadas

Você sabe como surgiu as torcidas organizadas no Brasil? Não? Eu te conto. A primeira torcida organizada nacional foi feminina. Isso mesmo, no início das participações do Atlético Mineiro, as mulheres iam aos estádios com bandeirinhas uniformizadas para acompanhar seus maridos. Aos poucos, os torcedores começaram a se agrupar e se organizar para acompanhar seu time do coração de perto.

Com isso chegamos a categorização de torcida organizada que consta no Estatuto do Torcedor: “Art. 2o-A. Considera-se torcida organizada, para os efeitos desta Lei, a pessoa jurídica de direito privado ou existente de fato, que se organize para o fim de torcer e apoiar entidade de prática esportiva de qualquer natureza ou modalidade. (Incluído pela Lei nº 12.299, de 2010).”

Torcidas organizadas não são e nunca foram sinônimo de violência e vandalismo, estes grupos têm a função de apoiar e motivar o time, auxiliar a festa na arquibancada, promover ações que aproximem o torcedor do seu clube. As organizadas potencializam o amor pelo clube, quantas vezes nos arrepiamos, nos emocionamos, perdemos a voz, com a festa organizada por esses grupos? É deslumbrante.

Levando em conta que há sim, casos muito graves envolvendo as organizadas, acontecimentos esses que mancham a reputação do que deveria ser única e estritamente definida por amor e devoção. Trago-lhes as palavras da Júlia Moreira, integrante da Guerreiros do Almirante (GDA), torcida organizada carioca referente ao Club de Regatas Vasco da Gama.

Como você definiria a função das organizadas?

É de um papel social muito importante. As torcidas organizadas mobilizam torcedores de diversas classes, historicamente permitiu acessibilidade ao futebol a jovens periféricos e hoje é um ambiente não só ligado a arquibancada, mas também a política dentro e fora dos clubes.

Como é sua experiência em torcidas organizadas?

Eu cresci querendo fazer parte de uma organizada. Eu via vídeos, fotos e relatos de amigos que me faziam ficar ainda mais apaixonada. Quando tive meu primeiro contato com a arquibancada, não pensei duas vezes em me associar. E me joguei de cara…

Foto: Raphael Freitas

Júlia já foi associada a outra torcida organizada referente ao Vasco, Mancha Negra, fundada em 1999, por ex integrantes da popular Força Jovem Vasco. É de se imaginar os desafios de ser diretor de uma torcida organizada, não é apenas juntar os amigos e torcer com o coração, há camadas e ações a serem elaboradas.

Ainda mais quando se é mulher e possui um cargo de extrema responsabilidade como este, além do já citado inúmeras vezes, porém ainda significativo, fato de que o futebol ainda é um ambiente misógino. Questionei em relação a tais funções exercidas como diretora e se houve respeito dos demais integrantes para com a entrevistada, então, Júlia afirmou:

“O respeito teve de ser conquistado. Quando se é mulher em torcida organizada é preciso buscar o seu espaço… Quando se é mulher em um cargo de diretoria na torcida, você precisa se impor. Teoricamente, minha função era coordenar a comunicação e marketing da torcida. Mas sempre coloquei a mão na massa em tudo, bateria, vendas, eventos… Tudo! Todas as ações sociais que participei atrás das organizadas foram gratificantes demais.”

É isso que deveria ser pautado nas arquibancadas: amor, devoção, entrega, apoio, força.

Estar cercado de pessoas que compartilham do mesmo sentimento que você, cantar os noventa minutos e sair do estádio sem voz, mas com o sentimento de dever cumprido, mesmo quando o resultado não é favorável. Passar raiva e olhar para o lado sabendo que aquela pessoa, mesmo que desconhecida, está passando pelo mesmo que você. Estádio é lugar de espetáculo, é lugar para descontrair e apoiar seu time. É zoar o rival de forma saudável, não somos inimigos, somos humanos que possuem paixões diferentes e, ao mesmo tempo, iguais.

Não vamos generalizar as torcidas organizadas em violência e vandalismo, além de serem uma das as principais responsáveis pelas experiências memoráveis dos torcedores em relação ao futebol, também servem como canal da arquibancada com a diretoria e são fundamentais para um diálogo entre essas partes.

Para finalizar, deixo o recado da Julia, para as meninas que têm vontade de fazer parte de uma torcida organizada, mas são receosas. Tenham em mente que nós somos as pioneiras nas organizadas e o futebol também é um ambiente feminino. Obrigada Julia, pelas palavras e por ser um exemplo de que nós podemos sim, lutar pelo nosso espaço nas arquibancadas e onde bem entendermos.

“Somos mulheres, somos fortes, somos apaixonadas, somos torcedoras. O estádio é um lugar nosso, a torcida também! Busquem a sua liberdade de torcer, não tenham medo. Vamos juntas!” – Julia Moreira.

Foto: Danielle Gonçalves