Bairro do futebol, Maracanã vira palco de Feira Literária

Por: Maggie Paiva

Quando eu tinha uns 13 ou 14 anos, um professor de matemática me mandou um “cartão amarelo” porque, no meio de uma aula de matemática, eu estava comentando com um dos colegas o resultado do último jogo do meu time, no final de semana.

Segundo esse professor, seria impossível para mim ou qualquer outra pessoa prestar atenção em duas coisas ao mesmo tempo, tipo jogar na linha e no gol no mesmo jogo. E, me sentindo injustiçada, eu tomei como objetivo ir muito bem na prova seguinte, para mostrar ao mestre que aquela ideia, na verdade, não tinha fundamento nenhum.

Foi goleada, mas, apesar da nota máxima obtida, aquele achismo acabou por me perseguir em diversos momentos da vida. Seria possível dedicar minha atenção – ou amor, foco ou o aspecto que eu quisesse aplicar – a mais de uma coisa?

Seria possível amar música sertaneja e estar sempre ouvindo pop? Saber tudo sobre quadrinhos e dedicar boa parte do meu tempo a ler romances policiais? Torcer por um time no meu estado e outro em São Paulo? Ser uma leitora voraz e uma aficionada por futebol? Para minha eterna paz interna, a FLIMaraca veio para mostrar que sim.

FLIMaraca(nã)

Realizada no último final de semana – entre os dias 22 e 23 de Setembro – no bairro do Maracanã (Rio de Janeiro) a 1ª Festa Literária Informal do Maracanã reuniu leitores e autores ao redor de um dos palcos que mais cheira a futebol no Brasil inteiro. Todo mundo no mesmo time (apesar das diferentes posições).

Mas, dessa vez, as palestras, exposições, rodas de conversa, vendas de livros e trocas de ideias não tinham ligação com a bola, o campo, ou o resultado da última partida. No último final de semana, quem se reuniu na “arquibancada” da Estação Maracanã Botequim tinha outro tema em mente: os livros.

Com entrada franca, o evento – que nasceu de uma brincadeira entre amigos – agregou um público ligado ao bairro e às proximidades, prontos a compartilhar ideias e discutir sobre o universo da leitura, visando a aproximação com os leitores da área, contribuir com a democratização do acesso ao livro, render uma nova opção cultural e, claro, a ocupação de um espaço cheio de vocação para ficar cheio, como um Maracanã em dia de clássico.

E a torcida – opa, o público – parece estar abraçando esse evento cheio de possibilidades, que leva a literatura (algo que, para muitas pessoas, ainda parece tão distante e restrita) ao acessível bar da esquina: Quase cem pessoas – botafoguenses, flamenguistas, vascaínos – compareceram a um evento novo, gratuito e que teve seu embrião formado ainda em junho deste ano.

FLIMaraca

Gol de Placa

Um lugar enorme como o Brasil só pode ter um igualmente grande coração metafórico e, como cada pessoa, tem bastante espaço para inúmeras paixões. Não há porque não crer que o país do futebol possa ser também o país da leitura, dos livros e da educação.

Quando eu expando os horizontes de meus olhares e perspectivas, eu percebo que a simples ideia de poder se concentrar em apenas um amor é completamente paradoxal e o fato de eu estar aqui escrevendo sobre isso é uma prova disso.

Veja bem, eu não escrevo sobre futebol porque o amo. Mas calma… Eu amo futebol e é por isso que acompanho, assisto e analiso os jogos. Mas eu escrevo sobre isso porque eu amo escrever.

A união de dois amores cria uma coisa completamente nova, às vezes desconhecida no momento em que surge e reivindica seu espaço – como a FLIMaraca –, mas excepcionalmente cheia de possibilidades.

E se somos nós mesmos espaços de afetos, gostos, talentos e inclinações, por que o Maracanã – com sua inevitável conexão com o futebol – não poderia ser ele próprio casa de outras ideias e festas? Aí, amigo, haja coração!

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