13 clubes e (mais de) 1 segredo: política, futebol e o Clube dos 13

Por: Maggie Paiva

Ele nasceu em 1987, embora ninguém consiga lembrar realmente quando o embrião foi concebido e permaneceu entre nós por quase 30 anos. Apesar do alarde que fez quando chegou a hora de dar tchau, a verdade é que muita gente – fãs de futebol inclusos – ainda não sabe direito o que ele foi e para que serviu.

No entanto, eu estou me adiantando. Do meio para o final da década de 80, a CBF ia mal, a situação financeira ia de ruim a pior e a administrativa, idem. Sem dinheiro para realizar um campeonato nacional em 1987 – na época as chamadas Copa Brasil e Taça Brasil, entre outros nomes, chegaram a ter 94 times –, a entidade máxima do futebol brasileiro pediu o famoso arrego.

Postados à beira da crise, dirigentes de grandes times nacionais viram no momento uma oportunidade de dar mais poder aos times, que poderiam segurar nas mãos a possibilidade de jogar um campeonato mais competitivo e rentável, depois de competições com partidas consideradas inexpressivas, contra times pequenos e de pouca torcida.

Entrava em campo as habilidades políticas de dirigentes, representantes e cartolas em geral, na tentativa dos clubes de colocar pelo menos uma mão nas rédeas das tomadas de decisões no cenário do futebol nacional, por meio da criação de uma organização que, em tese, defenderia os interesses comerciais e políticos dos times.

Foto: Reprodução/Futebol Bahiano

A Copa União

No primeiro passo para contrapor o tal do velho poder e iniciar o que a história se responsabilizaria de chamar, principalmente, de “revolução” contra a CBF, os 13 times que acumulavam cerca de 95% da torcida do país começaram a União dos Grandes Times do Futebol Brasileiro, cobrindo a incapacidade temporária da Confederação.

Atlético Mineiro, Bahia, Botafogo, Corinthians, Cruzeiro, Flamengo, Fluminense, Grêmio, Internacional, Palmeiras, Santos, São Paulo e Vasco foram as cabeças pensantes da, até hoje difícil de explicar, Copa União de 1987 – um capítulo à parte dessa história cheia de nuances, onde as sobras de politicagem diante de uma crescente inabilidade e despreparação política parecia guiar mais as escolhas do que a real vontade das agremiações em comandar o futebol.

Foi o início da confusão. Clubes bem posicionados no ranking da CBF, e inclusive o campeão nacional do ano anterior, não foram “convidados” a participar da festa, já que os principais critérios que pareciam ser considerados era o tamanho da torcida e a expressão do time na possibilidade de gerar um campeonato tão disputado quanto rentável, diferente do que vinha ocorrendo nos últimos anos.

A dona da bola teve que intervir: primeiro, a CBF convenceu o C13 a colocar outros 3 times, no que ficou conhecido como Módulo Verde, depois ela própria idealizou o Módulo Amarelo que, com outros 16 times, seria uma espécie de Lado B da competição daquele ano.

Ao final, os dois primeiros colocados de cada módulo se enfrentariam em um quadrangular final, de onde sairia o campeão nacional daquela edição e os dois times brasileiros que iriam disputar a Libertadores seguinte.

Foto: Divulgação/Youtube

É importante ressaltar, até pela própria falta de critério na organização dos times de cada módulo, que dois dos times do Amarelo haviam ficado entre os 16 primeiros melhores colocados do campeonato nacional de 1986, com 2 estando inclusive no Top 16 do Ranking da CBF daquele ano.

Rugas de uma morte anunciada

Se a união entre rivais como Corinthians e São Paulo, Flamengo e Vasco, Atlético-MG e Cruzeiro, Grêmio e Internacional, do lado de fora do campo parecia muito boa para ser verdade, é porque era mesmo. Quando chegou a hora da bola rolar, e até mesmo antes disso, ficou claro que os dirigentes não estavam realmente prontos para deixar a rivalidade de lado e se concentrar no objetivo comum.

O Grêmio não queria usar a logomarca vermelha da Coca-Cola, grande patrocinadora do C13, na camisa. Vicente Matheus, presidente do Corinthians na época, só assinou o contrato quando o São Paulo liberou um jogador da base por empréstimo. O representante do Cruzeiro ameaçou “melar” o contrato, colocando a Pepsi na camisa, por conta de um jogo de seu time que não seria transmitido em detrimento de uma partida do Atlético de Minas Gerais.

As discordâncias dentro e fora das quatro linhas expunham a incapacidade dos representantes de pensar coletivamente, como a entidade que idealizaram mais que como os representantes de seus clubes, impedindo a união de seguir a direção inicialmente proposta e mesmo aumentar seu poder e expressão como tomadora de decisões na modalidade.

Em um quadro maior, eles acabariam por minar a própria força e ceder espaço para o retorno da CBF ao papel principal de (des)organizadora do futebol nacional. A entidade máxima, que só daria um espaço desses ao C13 novamente em 2000, “comeu pelas beiradas”, aproveitou a desunião, se aliou para dominar e virou a mesa para fazer o que sabia fazer de melhor: a política intrínseca ao esporte.

Como diria anos depois Grellet, que fez parte do Marketing do C13, a rivalidade burra acabou mesmo por enfraquecer os clubes e fortalecer as entidades.

A taça da discórdia

É difícil falar das brigas internas do Clube dos 13 e não citar a que delas talvez tenha sido a que foi mais longe, provavelmente por ter sido a que começou mais tarde. Apesar do troféu que protagoniza a disputa ter sido criado em 1975, a briga, que só começou mesmo em 2007, tem suas raízes na Copa União de três décadas antes.

Lembra o quadrangular final que deveria ter sido disputado entre os dois primeiros colocados do Módulo Verde e do Amarelo da competição de 87? Flamengo e Internacional, vencedores do módulo que carregava a “elite” do futebol nacional, boicotaram o final da disputa, sob o argumento de o Clube dos 13 não ter concordado com o formato – ainda que Eurico Miranda, representando a organização, tenha assinado a concordância junto à CBF.

Com a ausência dos dois times do Módulo Verde, Sport e Guarani fizeram a final e o time pernambucano foi declarado o campeão brasileiro, apesar de Flamengo reconhecer a si próprio como detentor do título nacional daquele ano.

Contudo, a novela, que teve suas prévias desenroladas ainda nos anos seguintes, só tomou corpo mesmo quando o São Paulo se tornou pentacampeão brasileiro em 2007. Já que a famigerada Taça das Bolinhas foi criada para ficar com o primeiro time brasileiro que fosse tricampeão em sequência ou penta de forma alternada, o time do Morumbi reivindicou o prêmio.

Já o Flamengo, que acreditava ser penta graças ao título de 87, queria a taça e suas bolinhas no Rio de Janeiro e, depois de muita briga na justiça, recursos, STF, STJ, FIFA, CBF e todo mundo que foi possível envolver, o Sport foi reconhecido como único campeão da ocasião. O Clube dos 13 já havia até chegado ao fim à altura, mas as consequências das escolhas feitas durante um campeonato de três décadas antes, ainda estavam se desenrolando realmente.

Foto: Apu Gomes/Folhapress

O legado da bagunça

O Clube dos 13 teve seus momentos de glória. A média de público foi de pouco mais de 20 mil, por exemplo, que é a segunda maior da história até hoje.

Mas com o tempo, a união que havia chegado ao número de 20 times associados, se tornou mais uma intermediária para negociação dos direitos de transmissão com Rádio e TV do que qualquer outra coisa que já tivesse sido desde sua criação. As brigas pelas fatias do bolo, a incapacidade de chegar a um acordo sobre o poder central e o descontentamento de membros, levaram a sucessivas debandadas que culminaram na implosão do C13 em 2011.

Atualmente, o que poderia ter sido de fato uma declaração dos grandes times do país em relação a ter parte na tomada de decisões dos rumos que o futebol nacional está constantemente tomando só existe no papel – graças a uma dívida milionária mantida com a empresa de seu ex-diretor de marketing.

Há de se ressaltar, no entanto, o que de bom parece ter vindo da bagunça – por falta de palavra que melhor defina – de 1987. Conceitos como o de divisões com 20 times, além de ascenso e descenso (requisitados pela própria FIFA) começaram a achar espaço no futebol brasileiro já no ano seguinte.

O próprio nome pelo qual conhecemos a principal competição do país hoje em dia, Campeonato Brasileiro, surgiu para que o mesmo não fosse confundido com a outra Copa. Esta criada para permitir a participação de times menores que, em 1987, passaram a recusar as disputas com os clubes da elite.

Grandes Poderes

31 anos depois, com o C13 já tendo chegado ao fim, alguns dos principais personagens que encabeçaram a criação e organização do grupo continuam defendendo: os times brasileiros têm nas mãos um poder que, até então, não conhecem completamente.

A implosão, a rivalidade e as brigas internas do Clube mostram que talvez os times brasileiros não estejam preparados para a sua fatia de responsabilidade nas escolhas políticas do futebol nacional. Ao mesmo tempo, a desorganização da nossa única entidade nacional suprema da modalidade, expõe que precisamos de alternativas.

As perguntas, que os organizadores do C13 devem se fazer até hoje, cabem perfeitamente na boca de cada torcedor que anseie por um futebol mais organizado e expressivo: e se o Clube não tivesse acabado? E se a CBF tivesse que sim conviver com um poder alternativo ao seu no cenário brasileiro? Uma coisa é certa: algo (de bom, esperamos) teria que preencher o espaço deixado pelo vírus da hegemonia.

Talvez compreender essa força seja o primeiro passo para uma organização onde os clubes possuem mais autonomia ou ao menos uma voz que possa de fato ser ouvida frente ao monopólio de uma entidade que tem sua própria bagunça para cuidar. Uma voz onde o futebol se assemelhe mais a uma democracia e menos a um reinado onde apenas uma entidade decide realmente os rumos que a paixão nacional toma fora de campo e, consequentemente, dentro dos gramados também.

Se a politicagem é uma erva daninha no futebol, aprender a fazer política talvez seja um mal necessário. E, como diria Nelson Rodrigues, não se faz literatura, política ou futebol com bons sentimentos. Mas, pegando emprestado o bordão de outra área, é preciso lembrar: com grandes poderes, vem grandes responsabilidades. Os times brasileiros apenas não parecem preparados para elas.

Foto: Divulgação/ESPN