Mãe palmeirense dá lição de amor e inclusão ao mundo

Nesse último domingo (9), acontecia na Arena Palmeiras mais um derby disputado pelo Campeonato Brasileiro, mas o que roubou a cena foi uma imagem que marcou o mundo: uma mãe narrando o jogo para seu filho deficiente visual. A imagem literalmente correu o mundo e tocou o coração de muitos. O garoto ouvia atentamente a narração da mãe: “Filho, Marcos Rocha pegou na bola. Passou para o Deyverson. Vai ser gol do Palmeiras agora”. Nesse momento, ele sente a vibração da torcida, pula, grita e sorri.

Nickollas nasceu cego, tem 11 anos e possui apenas 10% da visão. É sua mãe, Silvia Grecco, quem dita o que esta acontecendo em campo, e afirma que o estádio do clube alviverde é o lugar em que o menino mais se sente feliz no mundo. Essa programação é um ritual para os dois, mas no último domingo, eles foram surpreendidos pela transmissão da Globo e a cena viralizou. “Eu sou os olhos e a mão que servem como guia. Eu faço para ensinar que, um dia, os meus olhos não poderão ser os olhos dele. E ele vai ter que olhar sozinho. Eu estou mostrando o caminho para um dia ele ir sozinho”, diz a mãe.

Tudo começou quando Nickollas veio ao mundo, Silvia tinha se inscrito na vara da infância para um processo de adoção. Após sete meses foi chamada, e um bebezinho que havia nascido prematuro, com apenas 5 meses, a ganhou e Silvia sabia: “Era meu filho”. Ela já tinha uma filha, Marjorie, 31, mas teve que reaprender a ser mãe. Principalmente pela deficiência visual e com o autismo, que descobriu depois, quando o garoto tinha 5 anos.

“Eu tinha que me adaptar, aprender tudo. Não tinha medo da deficiência visual, mas todo dia eu ia aprendendo com ele como teria que ser. Pedi ajuda de pessoas multidisciplinares e a coisa foi acontecendo. É tão natural que eu esqueço que meu filho é cego.” E assim a paixão do menino pelo futebol foi tomando forma e veio da mãe. Ela gostava desde pequena do esporte, ouvia os jogos do Palmeiras com o pai no rádio de pilha. Criou a mesma rotina com o filho.

A paixão definitiva veio quando o menino começou a ouvir os gols do Neymar pelo Santos e virou fã do ídolo da seleção brasileira. A mãe até o levou para conhecer o craque na Vila Belmiro: “Mandei um e-mail para ele conhecer o Neymar. Até para saber quem era esse tal de Neymar, porque é dessa forma que ele conhece o mundo. A gente foi ao treino do Santos, o Neymar estava com a mão machucada. Ele passou a mão no cabelo do Neymar”.

“O Nickollas era pequenininho e o Neymar estava no auge. Ele ouvia as narrações e repetia: ‘Gol do Neymar’. Eu pensava: ‘Ele gosta do Santos e palmeirense. Como fica isso?’ E eu usei uma estratégia bem legal. Contei que o Neymar era palmeirense. Então ele se entusiasmou de torcer para o mesmo time do Neymar”.

Hoje Nickollas frequenta o estádio e prefere a narração da mãe ao radinho. Toda essa repercussão não os deixa presunçosos, a mãe diz que o garoto sabe que esta bombando nas redes sociais e tira muitas fotos na rua. Já Silvia não tem parado de dar entrevistas. Para ela, o que importa mesmo é mostrar o valor da inclusão e encorajar as pessoas. “Eu falo sobre tudo de forma espontânea. A história dele não é um problema. Ele tem que se orgulhar”.

Sempre ouvimos muitas histórias sobre futebol e sobre não ser apenas futebol. E essa com certeza marcou cada um de nós. É uma lição de amor, empatia e esperança. Nos mostra o quanto é importante lidar com as diferenças e que podemos aprender muito com elas. Para finalizar, uma frase de Eduardo Galeano que encaixa bem nesse momento: “Somos o que fazemos, mas somos principalmente o que fazemos para mudar o que somos”.

Foto: R7 Esportes