Futebol no Brasil, o reflexo da sociedade e da política brasileira

Por: Vittoria Catarina

Na última quarta-feira (5), o Senado Federal debateu sobre o futebol brasileiro e a presença das torcidas nas arquibancadas. Ainda que as pessoas tenham o conhecimento do poder econômico e social desse esporte, alguns tabus são mantidos e a audiência pública serviu para que esses sejam debatidos. O fato é que, da mesma forma que não possamos ressaltar apenas de forma positiva a presença das organizadas nas arquibancadas, também não devemos generalizar os casos de violência nos quais as mesmas estão envolvidas.

A audiência foi realizada na Comissão Senado do Futuro, onde o senador Hélio José conduziu o debate com a banca convidada, cujos integrantes foram: Alex Minduím, presidente da Anatorg; Heloísa Helena Baldy, pesquisadora e doutora em educação física pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); Zé Silva Júnior, coordenador de Defesa dos Direitos do Torcedor do Ministério do Esporte; Wanderley Benevides, consultor de segurança em estádios; e Danielton Lima, presidente da Raça Rubro Negra do DF.

Entre os principais temas apresentados, estavam a marginalização imposta aos torcedores organizados, as punições direcionadas às suas torcidas e não ao indivíduo que comete o crime, o preço elevado dos ingressos, os horários tardios dos jogos em dia de semana, a proibição de instrumentos musicais e bandeiras nos estádios e o projeto de lei de torcida única. Os representantes de diversas torcidas organizadas do Brasil marcaram presença nessa importante audiência. Anteriormente, o pontapé foi dado para a criação do projeto de lei do Dia Nacional das Torcidas Organizadas, que seguirá em andamento na Câmara dos Deputados.

Com todo o respeito que tenho às diversas opiniões futebolísticas, agradeço ao jornalista Gabriel Caetano e à pesquisadora Heloísa Helena Baldy, ambos presentes na audiência pública, por terem compartilhado as suas visões sobre o assunto e terem me ajudado a formar, somada às minhas experiências dentro do cenário do futebol e em visitas dentro das organizadas, uma opinião sobre estas.

Primeiro, quero compartilhar da indignação do Caetano ao lembrar que o presidente da República, Michel Temer, cortou 87% dos recursos financeiros do Ministério do Esporte para o ano de 2018. Apesar de ter ciência da crise política e financeira que o país enfrenta, entendo que o papel do esporte dentro de uma sociedade é essencial para o desenvolvimento de valores e para que a atitude de remediar possíveis incidentes não venha a ser necessária. A situação só se agrava com o preço elevado dos ingressos, elitizando um esporte que ficou conhecido por ser tão popular.

Sobre as torcidas organizadas, acredito que da mesma forma que não deveria ser discutida a presença delas dentro das arquibancadas – por ser um direito de qualquer cidadão –, é um tema totalmente complexo pela forma como foi tratado até então. O reflexo da cultura de um país é a sua sociedade, assim como é visto no futebol. A violência não está diretamente ligada a esse grupo de pessoas, que na sua maioria são adultas, com trabalho registrado e com adequado nível de escolaridade – dados levantados em pesquisa realizada pela doutora Heloísa.

A verdade nunca será totalmente transparente, tema amplamente discutido entre os jornalistas, já que não existe uma verdade absoluta. Então, como posso escolher um grupo de pessoas e taxa-las como marginais, agressores ou vândalos? Bom, isso me fez questionar o papel da mídia nesse cenário, e cheguei a uma conclusão: os meios de comunicação mostram aquilo que dá audiência e, dessa forma, aquilo que as pessoas gostam de ver. Será que a sociedade estaria preparada para ouvir e realizar esse processo de inclusão dentro do futebol? Acredito que não.

Além disso, creio que o processo das torcidas organizadas pode ser comparado com a política. Onde, ainda que existam as suas exceções, as pessoas passaram a ver como um “setor perdido” de forma generalizada, um verdadeiro tabu. Então, mesmo com as campanhas dentro das torcidas em prol da sociedade, como é o caso de doações de roupas e de sangue, isso passa despercebido aos olhos de quem só está disposto a ver o lado negativo.

Quando você escolhe a exclusão, a falta de comunicação e o combate, abre mão de conhecer as pessoas, as suas dificuldades e tudo aquilo de bom que elas podem oferecer. O real motivo dos problemas apresentados no futebol é a ausência de diálogo entre os representantes públicos políticos do nosso país, os responsáveis dentro dos clubes, a segurança pública e os presidentes das torcidas organizadas. É a falta de punição, mas, também, de cumprimento das leis do Código Penal e da Constituição Brasileira quando se trata do torcedor organizado.

E por que esse diálogo não acontece? Acredito que entre na linha do quão “perigoso” pode ser alguém, ou um grupo de pessoas, saber que tem poder e influência sobre algo. Aqui, podemos utilizar mais um exemplo recente, como o caso da Greve dos Caminhoneiros – onde esses profissionais só souberam a força que tem depois do ato, o que criou uma situação totalmente complicada para todos os brasileiros. Acredito que o poder público tenha medo do crescimento das torcidas organizadas, não estamos falando de qualquer país, mas sim do país do futebol.

Quando você mostra algumas coisas positivas sobre determinado projeto, as pessoas inevitavelmente pensam: “Eu quero fazer parte disso”. Se a sociedade criar qualquer simpatia que seja pelas torcidas, sem a visão preconceituosa, automaticamente o grupo de pessoas se tornará maior. E, com isso, a influência das torcidas organizadas também será maior – o que pode ser de difícil controle para os nossos políticos, reforçando a desordem como mais uma característica do Brasil.

Com toda essa reflexão sobre torcidas organizadas, o nosso futebol e a política brasileira, deixo apenas um apelo: Independente de quem definirá o rumo do futebol nacional, assim como o do esporte no Brasil, peço que sejam apaixonados por essa cultura. Reflexão, essa, baseada na abordagem do jornalista Eduardo Galeno, quando esse disse: “Você já entrou, alguma vez, num estádio vazio? Experimente. Pare no meio do campo, e escute. Não há nada menos vazio que um estádio vazio. Não há nada menos mudo que as arquibancadas sem ninguém”.

Foto: Vittoria Catarina