Escravos de Jó do Brasileirão

Odair Hellmann, Mano Menezes, Renato Gaúcho e Gilson Kleina, esses nomes representam os únicos técnicos que continuam a frente de seus times desde o começo do Brasileirão 2018. Está cada vez mais comum esse rodízio de técnicos nos clubes brasileiros, o que impressiona é o tempo de atuação de cada treinador se reduzindo de forma inconsequente.

Apenas 16 rodadas já foram concluídas no Brasileirão e já se alcançou o número de 20 trocas de treinadores por parte dos clubes da série A do campeonato, sendo o último Marcos Paquetá que atuava pelo Botafogo de Futebol e Regatas a exatos um mês e seis dias, onde esteve a frente do clube há apenas cinco partidas.

Um treinador é responsável por elaborar e organizar a parte técnica e tática de um time, de forma “pedagógica” transmite sua metodologia de trabalho e seus ideais aos seus jogadores e desenvolve táticas que aprimoram o futebol de seu elenco. Todavia, no campeonato brasileiro o técnico é intitulado como uma espécie de “mágico”, onde de forma imediata, precisa trazer resultados positivos, porque se tudo der certo nos primeiros jogos, o profissional é um gênio. Se não, é dispensado e volta a buscar por alguém que “tire um coelho da cartola”.

Claro, que existem exceções, onde treinadores possuem metodologia de trabalho que não se encaixa nos ideais e estilo do clube, ou não consegue criar uma identificação com os jogadores do time e motivar os mesmos, e isso cabe aos dirigentes avaliar melhor antes da contratação. Entretanto, para que o trabalho seja eficiente e alcance os tão almejados resultados positivos, há uma necessidade na continuidade do sistema tático do profissional, um longo período de trabalho árduo.

O que não é bem aceito por parte da torcida e dos dirigentes dos clubes brasileiros. O torcedor é o que move o time, não é de hoje que ouvimos a frase “a torcida entrou em campo com o time”; a paixão que os torcedores depositam e a forma como se dedicam a elevar seu time do coração, através da presença nos jogos e o sócio torcedor, lhes dá direito de exigir resultados efetivos, visto que, todo torcedor quer ver seu time sendo campeão e disputando campeonatos de prestígio.

No mesmo viés encontra-se os dirigentes do clube, que além de sofrer com a pressão da torcida, também sofre com a pressão por parte das empresas patrocinadoras. Um time com resultados negativos consecutivos gera consequências igualmente negativas para a situação econômica do clube. A frequência do público diminui, com isso reduzindo o lucro com a bilheteria dos jogos, e as empresas não procuram clubes que não lhes ofereçam retorno concreto. Como por exemplo, o caso do Vasco da Gama, que se encontra há mais de seis meses sem um patrocinador master devido a sua instabilidade política gerando falta de credibilidade no mercado.

Contudo, os treinadores não são “milagreiros”, um elenco com deficiências técnicas não alcançará grandes resultados com pouco tempo. Deve ocorrer um trabalho em conjunto, onde o técnico aprimore as qualidades de seu elenco, procure peças que encaixam no time para suprir as necessidades do mesmo, onde a diretoria dê suporte e proteção para o trabalho técnico, além de estruturar o time economicamente para que boas contratações ocorram e supra as necessidades que o elenco como um todo possua.

O que mais me preocupa é a pressa que domina o futebol brasileiro; a pressa por resultados, a pressa por vitórias, a pressa por títulos. O brasileiro deixou de apreciar o espetáculo que é o futebol, os dribles, as jogadas pomposas, os gols bonitos, o entrosamento da equipe, o coletivo. Hoje o que realmente importa são números, são posições na tabela. Não interessa de que forma o resultado virá, nada difere se seu time ganhou na “catimba”, se o time errou um número grande de passes ou se a vitória veio por meio de um erro de arbitragem, o que realmente interessa é a vitória.

O futebol não se resume a isso. Futebol é raça, é entrega, é a alegria de comemorar um gol com os parceiros, é dar uma caneta no adversário, é fazer um gol olímpico, é o coletivo falando mais alto, são onze jogadores lutando e batalhando por um mesmo objetivo. Não há vitórias sem trabalho árduo e contínuo, não há conquistas sem perseverança.

Para aqueles que, assim como eu, não aguentam mais passar raiva com o time do coração, que sofrem com as derrotas e sentem cada gol ou cada posição decaída na tabela, só digo uma coisa, cobrem raça, cobrem dedicação, cobrem planejamento, cobrem alegria dos seus jogadores por vestirem a camisa pesada do clube de vocês, mas tenham paciência e calma, com muita organização bons frutos serão colhidos no futuro.

Foto: Divulgação/Gazeta do Povo