Vascaínas Contra o Assédio: uma por todas e todas por uma

Antes de tudo, como introdução, irei esclarecer algo que ainda está um pouco confuso para algumas pessoas e revelar o que será a pauta do assunto de hoje. Assédio: “consiste em uma perseguição insistente e inconveniente que tem como alvo uma pessoa ou grupo específico, afetando a sua paz, dignidade e liberdade” e também se insinuar sexualmente para outra, provocando desconforto na vítima“.

Contudo, meus caros, suas “brincadeirinhas”, suas “cantadas”, seus gritos de “oh lá em casa”, “gostosa” e, entre outros casos que os queridões chegam às vias de fato e tentam beijar, passar a mão ou algo até mais sério, sem o consentimento da mulher, é assédio, é crime! Com isso esclarecido, estou trazendo uma entrevista com as meninas do Vascaínas Contra o Assédio que consiste em um grupo de vascaínas que se uniram para lutar contra o assédio sofrido por diversas mulheres nos estádios.

Como surgiu a ideia do Vascaínas Contra o Assédio?

A ideia surgiu em uma conversa de torcedoras após o caso de assédio ocorrido com a jornalista Bruna Dealtry – que por sinal, aconteceu em São Januário. Nos inspiramos também na #DeixaElaTrabalhar, que foi uma campanha lançada por jornalistas que também sofrem assédio todos os dias nos ambientes esportivos. Marcamos a primeira reunião de apresentação e planejamento com todas as vascaínas interessadas, fizemos nossa divulgação nas redes sociais e está tudo sendo muito bem acolhido por todas.

A instituição Vasco da Gama dá total apoio e suporte a vocês?

A Sônia, vice-presidente do Vasco, abriu as portas do Clube para o movimento e vem dando o suporte que ela pode desde então. Nossas primeiras reuniões aconteceram em dependências de São Januário graças a essa parceria, algumas pessoas conheceram o movimento através dela e todas nós ficamos muito felizes com tudo isso. É de suma importância para nós, ver que o nosso Clube está apoiando a nossa causa, inclusive trabalhando com a proposta de elaborar a cartilha contra o assédio e a ouvidoria voltada para mulheres durante os jogos.

Quais são as ideias e ações que vocês estão desenvolvendo no momento?

No momento, nós temos o projeto de panfletagem dos “machistometros” em forma marcador de livro (que sairão em breve) e as oficinas para todas as mulheres; temos maquiadoras profissionais, uma professora de luta que se prontificou a ensinar defesa pessoal, tanto física como verbal. Temos, também, advogadas para ajudar e tirar dúvidas sobre os direitos das mulheres. Além disso, temos momentos de divulgação de “conhecimentos gerais” sobre assuntos de interesse das mulheres no nosso twitter e facebook. Em todas nossas reuniões nós ouvimos as sugestões de ações de todas, então a ideia que nossas ações só cresçam.

O que vocês acham que nós mulheres, podemos fazer para lutar contra o assédio?

Nossa união é muito importante para combater o machismo nos estádios. Precisamos saber quando somos assediadas, que não é normal e que não precisamos aceitar tais desconfortos para estarmos apoiando o nosso time. É importante que fiquemos ‘de olho’ nos assédios mais velados e que tenhamos a liberdade e a coragem de corrigir nossos amigos e desconhecidos quando têm certas atitudes. Nosso movimento também é uma forma de luta contra o assédio na arquibancada vascaína e esperamos que todas as mulheres sintam-se bem-vindas e à vontade para lutar conosco.

As meninas do Vascaínas Contra o Assédio são mulheres que representam nós torcedoras, que não nos sentimos confortáveis e seguras de ir a um estádio sozinhas por medo de ser assediada, nos representam por estarem lutando por uma causa que precisa ser debatida, pois nós temos direito de acompanhar nosso time do coração de perto quando bem entendermos.

Ser uma mulher no cenário atual não é uma tarefa fácil, ser mulher e ser apaixonada por futebol é ainda mais complicado, uma mulher não pode simplesmente sentar em um bar para assistir uma partida de futebol com as amigas sem ser alvo de homens inconvenientes (para não dizer babacas) lhes fazendo perguntas ridículas como: “Você gosta de futebol? Então me diz ai o que é impedimento”, ou então, “me diz a escalação do teu time de 1962”. Se você é homem e está lendo esse texto, não faça nenhuma dessas perguntas ou se presenciar alguém fazendo isso, mostre o quão indiscreto ele está sendo.

“Ser mulher já é um desafio e ser mulher apaixonada por futebol, que é um esporte denominado pela sociedade para homens é mais ainda. Mas nós amamos e pretendemos amar por bastante tempo. Passamos por situações que nos desanimam mas é tão cativante e emocionante que não pretendemos largar”, afirmou o grupo.

Eu rezo todos os dias para que a mentalidade daqueles que inferiorizam a opinião de uma mulher sobre futebol ou não dá seu devido valor, que veem torcedoras apaixonadas como embelezamento de torcida ou “marias chuteiras”, evoluam e percebam que a mulher não precisa provar que ama o futebol, não precisa saber a escalação do time de cinquenta anos atrás, não precisa se envergonhar por gostar de futebol ou por xingar o jogador quando ele dá um passe errado, não precisamos lutar para obter o “direito” de amar esse esporte tão incrível, nós já o possuímos e unidas vamos usufruir dele.

Parabéns, meninas do Vascaínas Contra o Assédio, nós estamos juntas nessa causa e com muita luta e dedicação vamos combater o preconceito e a violência contra a mulher nos estádios e enfim ter tranquilidade de amar nossos times e vivenciar em paz a emoção que só uma partida na arquibancada traz.

Fonte: www.facebook.com/vascainascontraoassedio/