Mulheres dentro das torcidas organizadas paranaenses

Por: Vittoria Catarina

Há alguns anos não se viam mulheres dentro dos estádios e era incomum encontrar voz ativa feminina quando o assunto era futebol. Agora já pensou encontrá-las dentro das torcidas organizadas? Nos últimos 20 anos, o cenário foi mudando e hoje existem aquelas que conquistam o seu espaço dentro de um ambiente tão masculino. Pensando nisso, no mês de abril, buscamos alguns exemplos dentro das torcidas dos três mais conhecidos clubes do estado do Paraná, o Trio de Ferro Paranaense: Clube Atlético Paranaense, representado pela torcida Os Fanáticos; Coritiba Foot Ball Club, pela torcida Império Alviverde; e Paraná Clube, pela torcida Fúria Independente.

Elise Oliveira, de 33 anos, é integrante da Fanáticos e um dos membros ativos do grupo participativo “mulherada problema – lugar de mulher é onde ela quiser”, que hoje conta com 30 meninas. Ela defende a ideia de que é preciso mobilizar essa campanha em diversas torcidas, pois assim deve crescer o número de torcedoras apaixonadas pelos seus clubes, assim como ela demonstra ser no seu modo de falar e agir. Conhecida até mesmo nas torcidas adversárias pela sua presença constante nas arquibancadas e seu jeito empolgado de torcer, a jovem acredita que todo o esforço vale a pena para acompanhar o seu time em todos os lugares, inclusive quando saiu de casa.

Fonte Fotográfica: Arquivo Pessoal

Quando tivemos nosso primeiro contato, Elise já havia comentado sobre as dificuldades que seus pais tinham em entender seu contato direto com a organizada. Por ser uma torcedora assídua, grande parte do seu vestuário e quarto eram estampados pelo Atlético PR e Fanáticos, algo que não agradava os seus pais. Quando a questionei sobre o excesso de preocupação ou falta de conhecimento, a jovem respondeu categoricamente: “Falta de conhecimento!” Complementou, dizendo que é diferente você vivenciar o dia a dia de uma torcida, estamos acostumados a ver somente as cenas de violência que são destacadas pela mídia. Seus pais não compreendiam as suas diversas viagens para acompanhar o clube, sendo assim, a situação se tornou instável. Hoje Elise locou um quarto e define a situação como seguir em frente, seguir o seu coração.

Luciana Nicolosi, de 38 anos, é integrante da Império há 23 anos. Ela relata que em 1995 começou a frequentar o Estádio Major Antônio Couto Pereira, quando tinha apenas 15 anos. Seu irmão frequentava a torcida organizada na época, mas não concordava que ela fizesse o mesmo. Eles entraram em um acordo. Como Luciana já trabalhava, em troca da participação na organizada, compraria para ele os ingressos dos jogos. Foi assim que começou uma caminhada sem fim ao lado da Império, ainda que mais tarde tenha trabalhado por três anos dentro do clube. Relata que quando entrou existiam em torno de dez meninas dentro da torcida, mas que a grande diferença para os dias atuais é a presença das mulheres não sendo das organizadas. Luciana é um exemplo de perseverança dentro da sua torcida, levando em conta que, além de ser mulher, passou por uma complicação durante a gravidez que a obrigou a usar muletas. Ela relata que, na época, quando recebeu a notícia dos médicos, se sentiu na obrigação de ser ainda mais forte e superar mais esse preconceito.

Fonte Fotográfica: Camila Arendt

Para Luciana, apesar do futebol ainda ser um ambiente machista, as mulheres que buscam esse respeito são correspondidas de forma positiva dentro das torcidas. Conta que até os meninos se policiam para não entrarem em alguns tipos de brincadeiras que possam ofender, quando um faz, automaticamente o outro já chama atenção. Dentro da sua torcida, existem vestuários femininos pela presença numerosa das mulheres. No bar, é uma mulher que auxilia o local. Na bateria, existem algumas que são figuras presentes dentro dos ensaios. Nos movimentos sociais, elas são as principais responsáveis para que tudo ocorra bem. Quando questionada sobre uma possível diretora de organizada, Luciana acredita que o futuro é próximo, mesmo que o cargo não seja almejado por ela.

Thalita Bergamaschi, de 24 anos, nos trouxe uma história um pouco mais leve e provavelmente esperada pelos torcedores apaixonados. No Brasil, sabemos que o futebol é um esporte de tradição e muitas vezes são passadas as paixões pelos clubes de pai para filho. Ou então, por que não, filhas? Uma família recheada de paranistas, em que o pai já era apaixonado desde a época do Colorado Esporte Clube, esse se casou com a sua esposa, que aderiu a torcida e então vieram as três filhas encantadas pelo tricolor. Apesar da família não ser toda integrante da Fúria, as irmãs mais velhas – Thalita e Nathani –, preferem acompanhar os jogos no meio da torcida organizada, junto com seus, respectivamente, esposo e noivo, que também são paranistas. Acho que ficou claro né? A regra é clara na família: para adentrá-la, é preciso ser primeiro paranista!

Fonte Fotográfica: Camila Arendt

As meninas brincam que muitas vezes com a correria são elas que arrastam os companheiros para o estádio, já que isso se tornou pura tradição. A mãe, quando questionada sobre os casos de preconceito dentro dos estádios, afirma que nunca passou e nunca viu suas filhas passarem por algo do gênero. Dentro dos eventos do clube, sempre viu respeito e preocupação com as famílias envolvidas. Ressalta: “Se tivesse acontecido, eu como mãe, jamais deixaria elas frequentarem os estádios. Felizmente, o Paraná é um clube que se preocupa com as mulheres que frequentam as arquibancadas, é uma torcida tranquila de frequentar.”