Tá escrito: menino, manda essa tristeza embora

Por: Vittoria Catarina

A Copa do Mundo acabou. Os holofotes se apagaram temporariamente. No Brasil, o Campeonato Brasileiro volta a tomar vida. Na Europa, a pré-temporada nos clubes se inicia. Alguns craques são poupados para terem seu descanso merecido, outros não conseguem descansar tão bem assim. Neymar é um deles, imagino que esteja com um desgaste emocional gigantesco. Humano. Antes de jogador, um ser humano. Com amigos, com família, com namorada, a base e o que realmente importa em meio a esse mar de críticas e olhares atentos de todos os cantos do mundo. São o abrigo, algo que não deveria se restringir apenas a esse ciclo de pessoas, mas que deveria ser o dever da nossa nação.

Realmente, as coisas não andam dando muito certo desde que chegou na França, né? Pasme, campeão da Ligue 1! Título que poucos conseguem conquistar, mas que quando se trata de você, se torna algo tão pequeno. É que parece que o “quase tudo” não serve para um jogador que tem quase todas as qualidades. O mundo não consegue se expressar para reconhecer isso, mas quer saber? Todos sabem que é a verdade, que você pode e é muito mais do que isso, e as críticas existem pelas expectativas que os outros criam em cima de você. Mas e você, Neymar? Quais são as suas esperanças? O que você espera de você? Acredito que é essa pergunta que deveria se fazer, ou já se fez, não posso afirmar, infelizmente não posso saber o que se passa na sua cabeça.

Ele queria se jogar. Ele queria agredir verbalmente. Ele queria ter esse mau desempenho. Me perdoe imprensa, colegas de profissão, mas quem são vocês para afirmar o que realmente o coração dele queria? Quem mais do que ele gostaria de conquistar a Bola de Ouro, ganhar uma Copa do Mundo, ser líder na artilharia e assistências, ser o orgulho da sua nação e do seu clube? Quem? Críticos, acham que ajudam e só complicam ainda mais. Mas tudo bem, realmente não é algo que eu espero que essa mídia brasileira entenda. Aliás, quando digo mídia, é tendo a total concepção de que ela reflete uma sociedade inteira. Como não admitir que o Brasil se encanta mais pelos talentos de fora do que os daqui? Como não admitir que somos autocríticos? Como não acreditar que é o reflexo de uma sociedade desacreditada e impaciente com tudo ao redor?

Tudo bem, me prolonguei. E se eu me calasse? Provavelmente é o que vocês querem. É o que queriam dele, não era? Ele fala demais, parece um garoto mimado. Não é isso que diziam quando ele aparecia com uma declaração polêmica? O problema foi resolvido, ele se calou. Como assim? Isso é um problema também? Oras! Vocês podem se decidir, por favor? Aposto que tirariam um peso das costas dele. Só que quer saber? Chegou um ponto em que vocês deixaram de ter a relevância que tinham na vida dele. Eu, como jornalista e sonhadora de um dia poder entrevistar esse jogador, me arrisco a dizer que foi a melhor decisão da vida dele. Ou a pior, nem sempre o jornalismo é só jornalismo. A maior prova disso foi ainda nessa Copa do Mundo, após a classificação contra o México, uma pergunta provocadora, uma imprensa doida para ouvir um “vocês vão ter que me engolir”. Um técnico, um professor, ou poderia chama-lo de pai? Tite tirou o gostinho do escândalo, “temos de respeitar a hierarquia. Técnico fala com técnico”. Obrigada, Tite. Obrigada, comissão técnica da Seleção Brasileira. Obrigada, companheiros de equipe.

Neymar, me coloquei em seu lugar por dez minutos. Realmente, não deve ser fácil ser você. Ainda assim, preciso questiona-lo: Onde está o menino de dois anos atrás? Ousadia e alegria? Confesso que me decepcionei um pouco nessa Copa do Mundo. Sabe como é, eu nunca assisti um título mundial brasileiro ao vivo. Sim, a minha expectativa em cima de um jogador. Ou melhor, de 23. Mas quer saber? Tudo bem, existirão outras competições, outras Copas. Agora, existirá um novo Neymar? Não sei se é isso o que eu realmente gostaria, acho que eu quero o futebol do antigo. E, o qual eu acredito, que seja a sua melhor versão. Lógico, até você me surpreender e fazer o inimaginável. Igual aquele gol antológico, ou posso chamar de obra prima, com a camisa do Barcelona contra o Villarreal? Você se lembra? Acredito que foi um dos mais bonitos da sua carreira, esse eu tive o prazer de assistir ao vivo.

Deixando de falar sobre a sua ousadia, agora, cadê a sua alegria? Eu sinto falta de ver aquele sorrisão, aquelas dancinhas, aquelas gargalhadas nos treinos. Acho que reflexo dos inúmeros boatos feitos com o seu nome em sua chegada na França, peço desculpas pela nossa nação te fazer passar por isso. Confesso que quando soube da transferência, pensei: Ou vai dar muito certo, ou pode dar muito errado. Tudo bem, nesse momento todos podem pensar que deu errado. Só que eu realmente acredito em uma coisa: Existem pessoas que foram escolhidas para mudar a nossa concepção da normalidade. E, do fundo do meu coração, eu acredito que você seja uma delas. Não, Neymar, hoje você não é o melhor do mundo e nem cotado para ser um deles. Sim, Juninho, amanhã é uma nova história que pode ser construída e acho que esses momentos eternos você sabe desenhar bem.

Agora, um apelo, como nunca fiz antes: Acorda! O sonho do hexa ficou para daqui quatro anos. “O momento mais triste da sua carreira” já passou, hoje já é um novo dia. Sei que é “difícil de encontrar forças para querer voltar a jogar futebol”, mas não só tenho a certeza de que Deus te dará força, como acredito que esse seja o momento de mostrar o quão forte e batalhador você foi até aqui. Sim, o caminho dEle é muito melhor do que o seu, a visão dEle também vai além do que você vê. Por esse motivo, os sonhos não devem ser tirados da sua cabeça e do seu coração.

Por fim, já que você gosta de samba, lá vai uma pequena citação: “Quem cultiva a semente do amor, segue em frente e não se apavora. Se na vida encontrar dissabor, vai poder esperar sua hora. Às vezes a felicidade demora a chegar, aí é que a gente não pode deixar de sonhar. Guerreiro não foge da luta e não pode correr, ninguém vai poder atrasar quem nasceu para vencer. É dia de sol, mas o tempo pode fechar, a chuva só vem quando tem que molhar. Na vida é preciso aprender, se colhe o bem que plantar. É Deus quem aponta a estrela que tem que brilhar. Erga essa cabeça, mete o pé e vai na fé, manda essa tristeza embora. Basta acreditar que um novo dia vai raiar, sua hora vai chegar!”

Fonte: Getty Images