Hey, Fifa, nós não vamos nos esconder!

Por: Julhia Marqueti

Talvez eu seja sortuda, mas posso iniciar este texto dizendo que as minhas idas ao estádio ou trabalhos com clubes de futebol e atletas, mesmo sendo do interior, nunca terminaram em assédio. Mas não é por isso que não posso me posicionar ou simplesmente defender aquelas que já sofreram algo que só aconteceu por serem mulheres. Como mulher, apaixonada por futebol e profissional do meio, me sinto no direto de falar sobre o posicionamento da FIFA em relação aos 45 assédios que foram feitos durante a Copa do Mundo 2018. Vale lembrar que 45 foram vistos, mas outros tantos podem ter acontecido longe dos locais onde as câmeras estavam posicionadas, além daqueles que não foram registrados.

Primeiramente, destaco que a entidade se disse surpresa com o número, o que já me assusta. Já que movimentos ao redor do mundo foram criados para que os casos pudessem ser diminuídos e que as mulheres pudessem frequentar estádios, sendo como profissionais ou torcedoras, de forma que não fossem assediadas por serem mulheres e estarem ali. Como exemplo, cito o mais conhecido no Brasil, #DeixaElaTrabalhar, que mobilizou jornalistas da área, após casos de assédios em frente as câmeras.

Meu segundo apontamento, e talvez o mais sério, fica por conta da orientação, feita pela Fifa, para poupar a erotização feminina. Lendo assim até parece que a ideia favorece a mulherada que quer ser respeitada quando o assunto é futebol. Porém não é bem assim. A entidade, maior do futebol, propôs que as emissoras de TV tenham mais cuidado ao mostrarem mulheres em suas transmissões, apenas isso. Punição aos que assediam? Nenhuma.

Enfatizo que quem anunciou a medida proposta foi o chefe de departamento de responsabilidade social da Fifa, Federico Addiechi. Ao lado dele, na coletiva que ocorreu para anunciar o numero de casos de assédios registrados, apenas homens estavam presentes. Não quero colocar aqui que homens não podem falar sobre assédio, porém, talvez seja por isso que a realidade de que acontecem assédios durantes partidas surte como surpresa para eles e a orientação deles fuja de uma punição realmente necessária.

A Fifa, ao invés de proteger, propõe que nos escondam. Propõe que toda a nossa batalha, de querer ter espaço neste mundo futebolístico, seja simplesmente ignorada. Colocam, mais uma vez, a mulher como a culpada de acontecer o assédio. E nessa situação de desconforto e desacreditada de que algo possa melhorar, sinto que a nossa luta cada dia fica maior. Dizer que vão ter que nos aceitar nesse meio já se tornou clichê, porém o clichê está apenas no dizer, não na aceitação de que mulher no futebol é normal.

Seguimos tentando nos fazer aceitas no meio, sabendo que os sacrifícios serão cada vez maiores. Mas acreditando que nossos sonhos sempre serão maiores que qualquer obstáculo que surgir. Desculpa Fifa, mas não vamos nos esconder. Nem hoje e nem amanhã!